À tua volta as coisas continuam a deixar-se ficar para trás. Por mais força que tenhas, sabes bem que já não podes inverter o sentido da tua caminhada, da tua ascensão. Já não fazes parte da multidão, pois agora és apenas mais um dos silenciados. Enquanto te elevas sobre o mundo vês as marcas do sofrimento que estás neste momento a causar. Ainda assim, sentes-te leve, sem remorsos, sem culpa. E lá em baixo as lágrimas rompem os corpos, rasgam de dor as almas que ainda vivem. Tu não. Tu já não vives, limitas-te apenas a assistir aos últimos instantes da tua morte. E o mais estranho é que nunca pensaste que isso fosse possível. Mas já acreditas e sentes-te puro. Então e agora que sabes, queres espreitar a vida de alguém que deixaste para trás?
Pedro
Levanto-me da minha cama e caminho pela casa. Ainda não tenho uma percepção exacta desta realidade que se abate agora sobre mim. Tu. Não. Estás. Aqui. Ligo a água do chuveiro e entro na banheira, não dispo a roupa. Começo a sentir peso em cima de mim, a roupa molhada cola-se ao meu corpo e é então que sinto que ainda estou vivo. Mas continuo a não ter forças para aceitar isto. Caio de joelhos e deixo-me estar assim, a água continua a correr indefinidamente e salpica tudo à minha volta.
O filme passa de novo na minha cabeça. Eu estou na minha cama, tu chegas e vês tudo o que não devias ter visto. Melhor, vês tudo o que eu não devia ter feito. Quero-te comigo. Amo-te. Não devia ter cometido a traição que acabou connosco. Odeio-me por isso. Destruí-te e agora eu próprio caminho para a minha destruição. Mas antes de me ir embora queria que percebesses que te amo demais para coexistir com este sofrimento de pensar sequer que te feri.
Como é que alguém que ama pode trair desta maneira?
Raquel
As aulas acabaram cedo hoje e mesmo assim não tive tempo para fazer tudo o que queria. Já é noite e eu odeio esta altura do dia. Neste momento estou precisamente naquele espaço de tempo em que me preparo para a noite de trabalho que está quase a começar. Depois de quase um ano a fazer isto já nem tremo, já nem choro quando me preparo para sair. As minhas roupas não combinam, são extravagantes e este brilho das lantejoulas do meu top sufoca-me. Sei que hoje vai ser uma noite calma, com três ou quatro clientes apenas e isso no entanto deixa-me mais aliviada.
Não é preciso muito tempo até que o primeiro carro pare ao pé de mim. É um homem na casa dos quarenta anos, que abusa no perfume que usa. Dois dedos de conversa e a nossa noite de amor está pronta a começar. O primeiro serviço de hoje vai ser muito básico. Vou começar por brincar com o seu instrumento até o deixar bem erecto. Provavelmente vou usar a boca, pela enésima vez. Vou sentir nojo e vómitos quando sentir o sabor dos fluidos na minha língua. Vou fingir que é a melhor noite de sexo da puta da minha vida.
Ricardo
“Algum rapaz entre os 17 e os 20? Primeira vez. Tenho foto, cam... ”
“Sou um rapaz de 18 anos e procuro jovem para a minha primeira vez com um rapaz.”
Aguardo resposta enquanto vejo deslizar mensagens que me deixam admirado, umas mais outras menos. Isto ainda é muito estranho para mim. É a primeira vez que uso este “serviço”.
Uma resposta.
“Oi. Tudo bem? De onde teclas?”
É a minha vez de responder. “Oi. Tudo. E contigo? Sou de perto de Lx. E tu?”
“Sou do Porto. Muito longe. Boa sorte.”
A conversa acabou aqui. Mas eu não desisto e volto a mandar a mesma mensagem para a sala comum do chat. Ainda nem sei o que faço aqui. Se os meus pais me apanham... nem sei... nem sei o que pensar. Não vou negar que sinto medo. Outra resposta.
“Olá. Idade?”
Sinto-me um bocadinho excitado. “Oi. 18. e tu?”
“20. Sou de Lx e quero foder hoje. És act, pass...?”
“Act? Pass? Desculpa… Não percebi…”
“Activo ou passivo?”
“Continuo sem perceber...”
Já desliguei o computador e preparo-me para me deitar na minha cama. Aquela conversa não correu muito bem, pois eu não sabia nada daqueles termos esquisitos que eles usam no canal de conversação. Canal de conversação?? Esta é boa! Canal de engate...
Senti-me embaraçado e sem saber o que dizer perante a experiência óbvia de quem “teclava” comigo, mas amanhã vou voltar lá. E se amanhã não conseguir um engate, hei-de voltar no dia seguinte...
Daniel
A minha mãe entra, olha para mim e solta umas palavras que irritam e confortam ao mesmo tempo. Estou a preparar-me para sair e este fantasma não pode ir comigo. Não pode, não pode...
Respiro fundo, sei que tenho que me controlar. Não resulta. Num instante o espelho reflecte a imagem falsa do meu eu, no outro instante o espelho nada reflecte... porque eu o parti em mil pedaços. A minha mãe grita. Estou coberto de sangue, mas pelo menos aquele espectro já não se ri de mim.
Pedro
Novamente deitado sobre a cama. Mas desta vez já me castiguei por te ter traído. A roupa molhada continua colada ao meu corpo e as caixas de comprimidos mostram-se vazias, espalhadas pelos lençóis que testemunharam o momento em que te destruí. Curiosamente é onde me destruo agora também. Vou morrer. Apercebo-me disso agora que sinto a minha cabeça a ficar mais leve, cada vez mais leve... como que fora de mim. O meu corpo está adormecido e mal me consigo mexer, mas ainda alcanço o telemóvel. Tenho vontade de te avisar que vou embora. Também sei que isso te vai atormentar ainda mais, pois nada poderás fazer agora. Já não quero ir, quero ficar.
Alguém me salva agora? Onde estão todos? Onde estás tu, amor? Ligo-te ou fecho os olhos...?