segunda-feira, 14 de maio de 2007

CAPÍTULO V

António, desta vez as coisas vão precipitar-se... e vais perceber o motivo que me levou a mostrar-te o Ricardo.


Pedro
É aquela sensação de querer repetir. Arrasto-me pelos corredores deste hipermercado onde as pessoas passeiam de uma forma quase irracional. Novamente aquela sensação de querer repetir. As garrafas das prateleiras sorriem à minha passagem, dançam para mim, seduzem-me. Quase que sinto o cheiro daquele whisky, a atracção da vodka. É isso, desta vez vai ser diferente. Sim, desta vez vou recorrer ao álcool para consolar a minha dor.

A minha vida não está nada fácil. Sinto a falta do meu pai, agora mais que nunca. Vejo-me sem força para fazer a minha mãe voltar a confiar em mim, sem que tenha medo do que eu possa fazer na sua ausência. O meu amor não quer saber de mim, tem optado por me ignorar nos últimos dias e recusa amar-me como antes. Como se isso não bastasse, ainda me vi obrigado a desistir dos concursos de dança pelos quais lutei durante tanto tempo. No meio disto tudo, a minha tentativa de suicídio foi um acto sem qualquer significado para mim. Talvez por isso eu o queira repetir.

Mas se na primeira vez eu sentia mesmo necessidade de morrer, agora sinto apenas necessidade de resolver os meus problemas. As pessoas à minha volta parecem fugir ao meu controlo, por isso talvez com uma pequena chamada de atenção eu consiga obrigá-las a olhar para mim, para o que eu quero...

A minha casa parece sempre tão fria quando estou sozinho e nem mesmo a música que ponho a tocar chega para aquecer o meu coração. A garrafa de vodka que comprei já está aberta, para uma festa privada. A minha pequena festa. Desta vez escolhi os comprimidos, não me limitei a agarrar em caixas ao acaso. Estes anti-depressivos que o psiquiatra me receitou vão mesmo acabar por me fazer algum efeito, eu sabia que eles tinham que ter um propósito. Misturo a vodka com sumo de limão, dizem que bate mais depressa assim. Em cada copo misturo três comprimidos. Depois de cinco ou seis copos já nem consigo agarrar bem a garrafa. A minha visão está turva, os meus movimentos estão lentos e até a minha audição parece estar condicionada. Ouço vozes e passos. Até parece que alguém me está a agarrar. Sinto-me cair no chão enquanto vomito. Tenho outra vez a sensação de que alguém me está a agarrar. Agora é uma sensação de rodopio, como se estivesse a cair num abismo sem fim, mas como se conseguisse voar. Paro de vomitar e então faço força para chegar ao copo cheio de vodka, mas algo me impede. Alguém agarrou a minha mão. Tento ver quem é, mas não consigo distinguir nada da encruzilhada de cores e movimentos que me turvam a vista.

Este cheiro é me familiar. Estes sons também. Pânico. Estou novamente no hospital. Choro. Estou na psiquiatria outra vez. Grito. Como é possível estar aqui? Não tomei nem metade dos comprimidos da primeira vez.
Uma enfermeira corre para mim. Desvio o olhar, para não a enfrentar. Ao meu lado está o meu amor. Está aqui, respira comigo, olha para mim mas os seus olhos não mostram tristeza. O que é isto? Estou a sonhar? Ela fala para mim, quase que sinto o ódio que sente por mim neste momento. Mas eu amo-a. Que se passa?

“Pedro, misturaste comprimidos com álcool. Devias saber que isso é uma dose mortal. Mas eu sei muito bem que só querias despertar a minha atenção por ti. Parabéns, conseguiste, mas da pior maneira. Podes apostar que agora acabou tudo de vez.”, estas palavras não podem estar a sair da boca dela. Não. Não pode estar a acontecer. Ela vira-me as costas, sem me dar oportunidade de falar. Vejo-a seguir determinada pelo corredor enquanto a enfermeira se aproxima de mim, quase que goza com a minha situação.

“Pois é, menino Pedro... a misturar álcool com comprimidos. Desta vez querias mesmo morrer, não?”


O Pedro deve...
dizer a verdade: "Não, eu só queria dar nas vistas"
mentir: "Sim, por acaso queria mesmo morrer."
Free polls from Pollhost.com






Raquel
Isto tinha que acontecer, o primeiro contacto com o Tiago depois de ele ter descoberto o que faço à noite. Eu ia atrasada para a primeira aula da manhã e pelos vistos ele também, o que fez com que nos cruzássemos à pressa no corredor que dá acesso à sala de aula. Desviei os olhos e apressei o passo em direcção à sala, nem foi de propósito, foi o instinto. Senti que ele parou e também desviou os olhos antes de gritar o meu nome. Paralisei, agora não podia ignorá-lo. Continuei de costas voltadas para ele, enquanto o sentia aproximar-se.

A primeira preocupação dele foi dizer-me que não tinha contado a ninguém. Depois pediu desculpa pela reacção do momento, enquanto dizia e repetia que não podia aceitar nunca aquilo que eu estava a fazer. Antes que eu começasse a chorar, ele pegou-me na mão e arrastou-me para a rua, faltamos à aula, e obrigou-me a contar por que fazia eu aquilo à noite, por que vendia o meu corpo.

A minha terapia começou. Sentamo-nos a um canto mais escondido, para que ninguém nos ouvisse a falar, mas ainda nem tinha contado metade da minha história quando estranhamente o meu telemóvel nos interrompeu. Eu conhecia bem aquele número, só não percebia como é que ele tinha chegado ao meu telemóvel. Enquanto ele piscava no ecrã, eu só me lembrava de como tinha apagado todos os rastos que pudessem conduzir a mim. Quando desapareci da minha outra vida optei por mudar de número de telemóvel, para que me tornasse incontactável, mas agora o número do meu pai estava a ligar-me. Como? Como tinha ele chegado a mim?

O Tiago notou a minha hesitação e perguntou se eu não ia atender. Eu respondi que não queria fazê-lo e preparei-me para rejeitar a chamada, mas ele não deixou. Pegou novamente na minha mão e segurou-a firmemente. O que me disse a seguir fez-me tremer da cabeça aos pés.

“Raquel, é melhor atenderes... asseguro-te que não é o teu pai quem está a ligar. É a tua tia e as notícias que tem para te dar não são as melhores, é melhor que saibas o mais rápido possível.”

Foi como se me tivessem dado um murro no estômago. Como é que ele sabia quem me estava a ligar? O que fazia ele ali afinal?



A Raquel deve...
atender a chamada
não atender, pedir primeiro explicações ao Tiago
Free polls from Pollhost.com






Ricardo
“You’re so sexy”. A música estridente inunda os corpos, faz-se sentir enquanto eu e o Nuno dançamos agarrados. “The beauty of that elusive creature called… ahh… man”. Sim, a beleza da criatura misteriosa e ilusória que é o homem. Sinto as batidas fortes do som. O Nuno beija-me. À nossa volta as pessoas dançam indiferentes. Noutro sítio qualquer esta cena não se passaria assim, mas o facto de estar numa discoteca gay altera completamente a minha realidade, ou pelo menos aquela a que estou habituado. Os nosso beijos continuam, enquanto me sinto arder de paixão. Já não tenho dúvidas, gosto do Nuno, mas gosto dele com uma força tremenda. No fim da música arrasto-o para fora da pista de dança e olho-o bem nos olhos, à espera que ele me faça a pergunta. Ele hesita e fica calado, como se não percebesse o que estamos aqui a fazer. Depois de eu próprio hesitar um bocado, vou buscar toda a minha força e pergunto-lhe se ele quer namorar comigo.

Não percebo bem a reacção dele, pois age como se eu tivesse feito a pergunta mais estúpida do mundo. Como se eu lhe tivesse pedido uma coisa impossível. Ele ri, como que a gozar comigo. Já percebi, ele não quer nada disso. Ri-se de mim, pergunta se eu estou mesmo a falar a sério, se penso mesmo que isto pode dar em algo mais que sexo. O chão parece fugir debaixo dos meus pés, enquanto as lágrimas me enchem os olhos e começam a rolar pelo meu rosto. Sinto-me mal, um enorme desgosto parece ficar preso na minha garganta enquanto me afasto dele e procuro um sítio para estar sozinho, mas as luzes não param, a música não acaba. A multidão dançante continua eufórica, festeja, como se este fosse um momento para festejar. Parece que o meu mundo acabou, de tão grande que foi a desilusão do momento.

Agora mais calmo, deixo-me ficar aqui a um canto. O Nuno continua a dançar na pista, parece que já arranjou companhia. De onde estou não consigo ver muito bem, mas parece-me que eles são mais que simples amigos ou conhecidos. Percebo o que se passou, o Nuno usou-me, aproveitou-se de mim, mentiu-me, iludiu-me. Sinto raiva por não ter percebido isso antes e o que mais me magoa é que ele ainda gozou comigo quando eu apenas lhe quis mostrar o meu amor.

Os meus anos no futebol têm que servir para alguma coisa, afinal toda a gente diz que eu tenho um bom pé esquerdo. Há que fazer uso dele agora. É uma fúria cega que me invade enquanto me aproximo do Nuno e o puxo pelo cabelo para fora da pista. À minha volta vejo rostos pasmados que se afastam enquanto eu o arrasto. O Dj põe Madonna e ouvem-se uns gritos histéricos de meia dúzia de bichas.

Os pontapés que lhe dei a seguir foram tudo menos suaves e exprimiram bem o ódio que lhe senti no momento. Consegui sair da discoteca sem que algum segurança desse pela situação e deixei-o a contorcer-se no chão com dores no estômago. Caminho agora sozinho pela noite. Estou triste, abatido e surpreendentemente não me sinto muito bem por ter feito aquilo ao Nuno. Construí o meu conto de fadas com ele, mas em apenas uma noite o nosso pequeno castelo desmoronou-se e deu lugar a um monte de ruínas. Agora o mais certo é que não nos voltemos a falar, mas eu gosto dele, preciso dele.

O meu quarto parece mais vazio que o habitual. Estou frio, não por fora, mas por dentro. Frio de desilusão, não consigo dormir e também não me esforço para isso. Talvez pudesse ir agora ao chat, ao mesmo onde conheci o Nuno. Talvez pudesse assim diminuir a decepção que me corrói. Talvez deva dormir e esquecer que o mundo lá fora existe, seja ele real ou virtual.


O Ricardo deve ir ao chat?
sim
não
Free polls from Pollhost.com






Daniel
O cenário perfeito. Eu, o meu pai e uma jornalista. Eu acabei de ser despachado da psiquiatria, vou para casa. O meu pai nem sabe o que faz aqui, nota-se que está nervoso. A jornalista procura entender o porquê do meu pai aqui, enquanto observa de relance esta sala de espera do hospital.

Apresento o meu pai à jornalista, que se mostra um pouco nervosa. Afinal, quando combinei com ela a entrevista, falei apenas de mim, nunca referi o meu pai. Mas agora aqui tem ela o primeiro-ministro à sua inteira disposição, ou talvez não. O meu pai começa ficar nervoso, agora que se apercebeu que esta mulher pode manchar a sua imagem na imprensa. Noto que ele se mostra agora mais atencioso comigo, mas logo acabo com esses sentimentos pretensiosos e falsos.

“Pai, vou embora para casa, mas não preciso que me leves. Se não me vieste visitar um único dia enquanto aqui estive, também não é agora que preciso de ti. Quanto a si, senhora jornalista, volte lá para o seu poleiro porque daqui não leva nenhuma entrevista. Se queria uma noticia já a tem e penso que é o suficiente, não tire fotos por favor.”

E com este discurso enfatizado virei costas e deixei os dois completamente sem saberem o que dizer. Foi a situação mais divertida da minha vida, porque tive mesmo aquela sensação de poder e criei uma tensão constrangedora para duas pessoas que pensavam que iam ganhar o dia à minha custa. Agora nem o primeiro-ministro vai dar ar de pai responsável nos jornais, nem aquela jornalista mesquinha vai ter uma entrevista exclusiva com o filho dele. Mas uma coisa é certa, a imagem dele vai ser prejudicada e eu vou ter muito orgulho nisso.

A minha mãe não gostou da forma como eu apareci em casa sozinho, afinal ela pensava que quem me levava era o meu pai. Quando lhe contei a situação que criei no hospital, não conseguiu evitar um sorriso malicioso mas logo fez uma cara séria para reprovar a minha ideia. No fundo ela queria isto muito mais que eu, mas há que manter as aparências.

Fingi que tomei os medicamentos, para deixar a minha mãe despreocupada e parto agora para um breve passeio à volta da minha escola. Ainda não me esqueci que fui expulso por causa daquele ordinário da minha turma e que é preciso fazê-lo pagar por isso. Relembro agora a maneira como ele me chamou anormal em frente a toda a gente. Aquela raiva faz-se sentir outra vez em mim. O Sol acorda os meus sentidos, embacia-me a visão e dificulta os meus movimentos. O meu médico bem me avisou que a medicação a que estive sujeito foi muito forte, que devia ter cuidado nos primeiros dias, mas a minha vontade de apanhar aquele miserável é mais forte que tudo isto. Por alguns momentos encosto-me ao gradeamento da escola e espero que me passe esta embriaguez das drogas do hospital. Já nem sei o que me preparo para fazer, apenas sei que no meu bolso permanece aquele objecto cortante com que planeio feri-lo. Sim, apenas feri-lo. É o que quero, sim é isso. É uma faca normal, das que todas as donas de casa usam nas suas cozinhas. Levo a mão ao bolso e vem de novo aquela sensação de poder mas vem também o medo. Excitação, lá vem o ordinário miserável a sair da escola, dirige-se para aqui. O ordinário miserável tem um nome. Chama-se Ricardo, é o melhor jogador de futebol da turma e ultimamente tem sido alvo de boatos sobre a sua orientação sexual. Vamos ver quem é o anormal agora...


O Daniel deve...
Desistir de ferir o Ricardo, ir embora
Ferir o Ricardo, ele merece
Apenas falar com o Ricardo, sem violência
Free polls from Pollhost.com