António, António… é hoje. A Raquel vai finalmente perceber. E todos eles se aproximam. Já percebeste a ligação do Ricardo ao Daniel e tens medo que os dois sofram com o choque de identidades que se torna inevitável. Por outro lado, o Pedro permanece um mistério para ti. Ou talvez não. Analisa bem os seus comportamentos. Afinal, apesar de morto, o psiquiatra aqui és tu…
Nota: devido a um empate na votação do “Pedro”, fui obrigado a escolher uma das opções. E a opção escolhida foi “O Pedro deve mentir.”
Pedro
Esta sensação de familiaridade causa-me arrepios, pois sinto como se isto já fizesse parte da minha vida. Perdoem-me a minha fraqueza. Perdoem-me por ter mentido. Sim, menti a quem me perguntou se desta vez queria mesmo morrer. Eu não queria, é óbvio que não queria mas não posso passar pela vergonha de admitir que queria apenas ter todas as atenções apontadas para mim. “Isto é a psiquiatria”, repito para mim próprio em pensamentos que me trespassam a cada hora que teima em fazer-se longa.
A minha mãe não consegue mais vir aqui e nem sequer telefona. As últimas palavras dela foram para me dizer que tinha sido ela própria a encontrar-me lá em casa, entre o álcool e os comprimidos que quase me mataram. Já sei que para ela eu morri, pois a única certeza que ela tem neste momento é que ao primeiro passo fora do hospital eu vou repetir isto, até morrer. Mas não vou. Não, não vou.
Sou um jovem suicida.
Os meus olhos tornam-se novamente pesados, sinto o meu corpo atordoado e deixo-me levar por esta dormência. À minha volta o mundo continua a girar. O meu inconsciente apercebe-se disso, pois os meus sonhos são levados para fora das paredes deste hospital.
Vejo o meu amor a chorar enquanto fala com as amigas sobre o que eu fiz. Vejo a minha mãe desesperada num quarto frio e vazio. Vejo-me acorrentado a algo que não me deixa soltar.
O que é isto? Um sonho ou o reflexo da realidade? Quem sou eu?
Raquel
O choque inicial acalma-se com a raiva que sinto agora. Aquele telefonema pôs a nu todos os dias da minha vida desde que deixei o meu pai. Foi como se uma terrível verdade se abatesse sobre mim e o mundo apontasse agora os meus erros cruéis e mesquinhos.
Mais de um ano longe de tudo e agora é que o meu passado se lembra de cair sobre mim.
Atendi aquela chamada. Quem me ligou foi a minha tia, única irmã do meu pai. Ligou-me do telemóvel dele, o que me fez crer poder ser ele quem estava a ligar. Mas isso era impossível. Agora eu sei que era impossível. O meu pai, António, prestigiado psiquiatra, morreu num acidente de automóvel. “O teu pai morreu Raquel…”, disse a minha tia a soluçar de tanto chorar, “tentamos contactar-te mas tornou-se impossível, não deixaste nenhuma pista, nada que nos conduzisse a ti”.
Se realmente quisessem saber de mim tinham contactado a policia quando eu desapareci. Afinal podia tratar-se de um rapto, mas quase que aposto que toda a gente fez força para que o meu pai apenas deixasse a situação avançar sem fazer nada para me rever. E assim fez ele. Eu arranjei a minha vida, tornei-me uma prostituta, como as pessoas simpáticas gostam de nos chamar. A família da parte do meu pai nunca gostou de mim, sempre achei que a minha força interior chocava um bocado com a futilidade deles. E agora encontram-me, através do Tiago. Nunca pensei. Nunca sequer imaginei que pudesse ser assim.
O Tiago já se foi embora, já deixou bem claro que não quer voltar a falar para mim. Eu percebo-o, afinal eu sou uma puta e isso não é uma coisa boa. Enquanto caminho por estas ruas cheias de gente, as palavras dele ecoam dentro de mim, fazem-me pasmar de surpresa, de cada vez que as recordo. “A tua tia é a mãe de uma grande amiga minha, tua prima portanto…”, disse ele sem sequer me olhar nos olhos, “foi através do hi5 que ela viu uma fotografia do nosso jantar de curso, onde tu também estavas. Ela reconheceu-te e daí até eu me oferecer para te ajudar no trabalho foi apenas um pequeno passo. Assim consegui o teu contacto, mas nunca esperei vir a descobrir que… que és uma…”
É… a Internet é uma coisa fantástica, não é?
E depois foi embora, o Tiago. O meu pai também foi e eu nem sequer o acompanhei nisso. Já não tenho mãe. Já não tenho pai. Quem sou eu? Quem é esta que se reflecte nas montras espelhadas das lojas por onde passo?
Ainda nem chorei, mas não aguento mais. O meu coração parece explodir, sinto algo preso na minha garganta. Sufoco. Perdi o meu pai. Estou sozinha no mundo, sem qualquer resquício de esperança. Encosto-me a uma parede suja e grito, grito de dor, de vazio, de fúria. As minhas mãos cravam as minhas calças, quero rasgar-me, abrir o meu corpo. Só assim posso sentir que estou viva. As pessoas passam na rua e, frias, olham-me como se eu fosse uma louca. Sentissem o que estou a sentir agora e já não olhariam assim. Mas estou melhor assim, sozinha. A minha mãe também decidiu morrer sozinha e de certa forma o meu pai também. Agora sou eu quem morre para o mundo.
O tempo voa, leva-me com ele. Prometi à minha tia que ainda vou esta semana ver o sítio onde o meu pai foi sepultado. Não quero ir, porque isso já de nada adianta. Queria apenas que ele respondesse às minhas perguntas, que me explicasse porque nos destruímos mutuamente se o amor que havia entre nós suplantava toda e qualquer ferida que pudesse abrir-se em nós. Quero tanto saber os motivos que o levaram a afundar-se no álcool, porque sinto-me muito culpada por isso. Haverá razões para isso?
É estranho, mas sinto que o meu pai me observa.
Ricardo
O chat acabou mesmo por dar os seus frutos. Uns foram frutos muito doces, outros foram frutos muito podres. Neste momento o meu pai está sentado à minha frente e faz perguntas sobre a minha sexualidade. É isso, o meu pai descobriu que sou gay. E eu sou? Sou. Pronto, por agora sou.
Aquele rapaz mais velho que conheci no chat pôs-me louco com aquela língua no meu pénis. Não deixo de pensar nisso enquanto o meu pai continua a discursar.
E que vou dizer? Digo a verdade. “Sim pai, já tive experiências sexuais com rapazes”. Ele pergunta se não é apenas uma fase, eu digo logo que não é. Mas ele não quer acreditar.
O outro rapaz que também conheci na net deu-me muito prazer no carro dele, quando fomos para o meio do mato ontem. Foi uma noite louca, mas acabou por me magoar enquanto fazíamos anal. Já nem me lembro do nome dele. O meu pai continua a fazer perguntas enquanto agita no ar as folhas que imprimiu do meu computador. Todos os meus registos de conversas na net estão ali na mão dele. Naqueles registos estão todas as minhas confidências sexuais, as “não sexuais”, aquelas sobre a minha família, as outras sobre os meus amigos. Isto é pior que tirarem-me a roupa em praça pública. Estou nu perante o mundo. O meu pai diz agora que a minha mãe ainda não sabe de nada e que foi através de um telefonema anónimo que lhe contaram sobre a minha orientação sexual. Foi o Nuno, de certeza, para se vingar dos pontapés que lhe dei na discoteca. Eu por outro lado, para o esquecer, arranjei outras fontes de prazer.
Aquele mais velho da net chegou a avisar-me para os perigos deste mundo, enquanto me fazia um broche na sua casa. É casado e tem dois filhos, um quase da minha idade. É um gay frustrado. O meu pai não desiste, nem com a minha confissão. “Sim, isso é tudo verdade.”
Mas o que sou eu afinal? Quem sou eu? Em menos de uma semana já tive sexo com três conhecidos da net. O meu pai descobre tudo sobre mim e eu não me importo. Pior, aquele Daniel, o anormal lá da minha escola, avisou-me que já correm rumores de mim na minha turma, sobre a minha orientação sexual. Mas a única rapariga que eu namorei, há mais de dois anos, parece que não quer acreditar nisso. E claro, os meus amigos defendem-me com unhas e dentes. Mas aquele Daniel percebeu logo que eu estava a mentir quando disse que não sou gay. Mas o que é isto afinal? Uma conspiração contra mim?
Se realmente é algo contra mim, então não está a funcionar, pois não me sinto minimamente mal com isto.
O meu pai desistiu, saiu do meu quarto a chorar e cortou-me o cabo da Internet. Não me interessa, tenho alguns contactos no telemóvel. Sou gay e depois? A minha vida tem tido mais prazer nas últimas duas semanas do que alguma vez eu pudesse ter imaginado.
O meu treino de futebol vai ocupar-me algumas horas agora, assim posso esquecer o assunto que parece querer corromper a minha vida. Entro no balneário, como sempre os meus colegas de equipa chegaram primeiro. Há algo estranho, como se eu tivesse algo na cara, eles olham para mim com repulsa. Não me falam e não percebo porquê, até nem joguei mal no último jogo. Tento não ligar a isso e preparo-me para vestir o meu equipamento. O meu melhor amigo e capitão de equipa avança para mim enquanto diz algo que me põe a tremer: “Ricardo, sai. Não te dispas. Não queremos um paneleiro aqui…”
Nesse mesmo instante o meu mundo desabou, senti um enorme peso nas costas. Afinal parece que ser gay não é assim tão bom como eu pensava.
Daniel
“Pois é Ricardo, eu sou o anormal de serviço não é? Ficas a saber que no meu bolso está aquilo com que era suposto ferir-te, mas não o vou fazer. E sabes porquê? Porque tu vais acabar por te ferir a ti próprio e assim eu não tenho problemas legais por te fazer um corte simpático com uma faca lá de casa. Não falas, não é? Podes fingir que não ouves, mas devias dar mais atenção aos boatos que correm sobre ti. Dizem que és gay. Serás? Porque é a tua boca diz “não” se os teus olhos dizem “sim”? És gay Ricardo. Não vejo mal nenhum nisso, pelo menos assim não corres o risco de procriar e o mundo fica um sítio bem melhor sem pessoas do teu sangue a vaguear por aqui. Tens noção de que eu te odeio, não tens? Não é bem odiar, é mais ter nojo, como se tem das baratas que povoam as instalações podres dos edifícios. A tua vida vai tornar-se num desses edifícios, sabes?”
Foi quase um monólogo que mantive com aquele palhaço. E no fim ele foi embora como se eu tivesse sido invisível, como se não tivesse nada. O que me alegra é que eu sei que tudo o que eu disse são verdades quase absolutas e que bem lá no fundo ele sente que vai acabar por me pedir ajuda. Começo a gostar do Ricardo. A gostar das fragilidades dele. Sim, porque eu não sou gay. Odeio esse tipo de pessoas que pensam que a diferença deve marcar o mundo. Mas e eu? Eu também sou diferente? Quem sou eu?
Este espelho que me reflecte agora está a querer mostrar-me quem sou. Mas este espelho não mostra o meu interior e ainda por cima reflecte algo que não sou eu. Não interessa, sorrio para aquele da imagem reflectida e vou embora. Mas ainda nem sei para onde vou.
Talvez deva visitar o meu falecido psiquiatra no cemitério. Ele iria adorar ter ali a presença do seu paciente mais problemático. Ou talvez deva agora aproveitar para voltar a visitar o Ricardo, afinal o pai dele já sabe das orientações sexuais do seu querido filho. Bastou-me fazer um telefonema anónimo para casa dele e a história rolou por si. Por outro lado, o Dr. António de certeza que me observa lá de cima, sinto isso a cada passo que dou. Mas... o Ricardo necessita da minha preciosa ajuda agora, ou não? E eu preciso de o humilhar…
Nota: devido a um empate na votação do “Pedro”, fui obrigado a escolher uma das opções. E a opção escolhida foi “O Pedro deve mentir.”
Pedro
Esta sensação de familiaridade causa-me arrepios, pois sinto como se isto já fizesse parte da minha vida. Perdoem-me a minha fraqueza. Perdoem-me por ter mentido. Sim, menti a quem me perguntou se desta vez queria mesmo morrer. Eu não queria, é óbvio que não queria mas não posso passar pela vergonha de admitir que queria apenas ter todas as atenções apontadas para mim. “Isto é a psiquiatria”, repito para mim próprio em pensamentos que me trespassam a cada hora que teima em fazer-se longa.
A minha mãe não consegue mais vir aqui e nem sequer telefona. As últimas palavras dela foram para me dizer que tinha sido ela própria a encontrar-me lá em casa, entre o álcool e os comprimidos que quase me mataram. Já sei que para ela eu morri, pois a única certeza que ela tem neste momento é que ao primeiro passo fora do hospital eu vou repetir isto, até morrer. Mas não vou. Não, não vou.
Sou um jovem suicida.
Os meus olhos tornam-se novamente pesados, sinto o meu corpo atordoado e deixo-me levar por esta dormência. À minha volta o mundo continua a girar. O meu inconsciente apercebe-se disso, pois os meus sonhos são levados para fora das paredes deste hospital.
Vejo o meu amor a chorar enquanto fala com as amigas sobre o que eu fiz. Vejo a minha mãe desesperada num quarto frio e vazio. Vejo-me acorrentado a algo que não me deixa soltar.
O que é isto? Um sonho ou o reflexo da realidade? Quem sou eu?
Raquel
O choque inicial acalma-se com a raiva que sinto agora. Aquele telefonema pôs a nu todos os dias da minha vida desde que deixei o meu pai. Foi como se uma terrível verdade se abatesse sobre mim e o mundo apontasse agora os meus erros cruéis e mesquinhos.
Mais de um ano longe de tudo e agora é que o meu passado se lembra de cair sobre mim.
Atendi aquela chamada. Quem me ligou foi a minha tia, única irmã do meu pai. Ligou-me do telemóvel dele, o que me fez crer poder ser ele quem estava a ligar. Mas isso era impossível. Agora eu sei que era impossível. O meu pai, António, prestigiado psiquiatra, morreu num acidente de automóvel. “O teu pai morreu Raquel…”, disse a minha tia a soluçar de tanto chorar, “tentamos contactar-te mas tornou-se impossível, não deixaste nenhuma pista, nada que nos conduzisse a ti”.
Se realmente quisessem saber de mim tinham contactado a policia quando eu desapareci. Afinal podia tratar-se de um rapto, mas quase que aposto que toda a gente fez força para que o meu pai apenas deixasse a situação avançar sem fazer nada para me rever. E assim fez ele. Eu arranjei a minha vida, tornei-me uma prostituta, como as pessoas simpáticas gostam de nos chamar. A família da parte do meu pai nunca gostou de mim, sempre achei que a minha força interior chocava um bocado com a futilidade deles. E agora encontram-me, através do Tiago. Nunca pensei. Nunca sequer imaginei que pudesse ser assim.
O Tiago já se foi embora, já deixou bem claro que não quer voltar a falar para mim. Eu percebo-o, afinal eu sou uma puta e isso não é uma coisa boa. Enquanto caminho por estas ruas cheias de gente, as palavras dele ecoam dentro de mim, fazem-me pasmar de surpresa, de cada vez que as recordo. “A tua tia é a mãe de uma grande amiga minha, tua prima portanto…”, disse ele sem sequer me olhar nos olhos, “foi através do hi5 que ela viu uma fotografia do nosso jantar de curso, onde tu também estavas. Ela reconheceu-te e daí até eu me oferecer para te ajudar no trabalho foi apenas um pequeno passo. Assim consegui o teu contacto, mas nunca esperei vir a descobrir que… que és uma…”
É… a Internet é uma coisa fantástica, não é?
E depois foi embora, o Tiago. O meu pai também foi e eu nem sequer o acompanhei nisso. Já não tenho mãe. Já não tenho pai. Quem sou eu? Quem é esta que se reflecte nas montras espelhadas das lojas por onde passo?
Ainda nem chorei, mas não aguento mais. O meu coração parece explodir, sinto algo preso na minha garganta. Sufoco. Perdi o meu pai. Estou sozinha no mundo, sem qualquer resquício de esperança. Encosto-me a uma parede suja e grito, grito de dor, de vazio, de fúria. As minhas mãos cravam as minhas calças, quero rasgar-me, abrir o meu corpo. Só assim posso sentir que estou viva. As pessoas passam na rua e, frias, olham-me como se eu fosse uma louca. Sentissem o que estou a sentir agora e já não olhariam assim. Mas estou melhor assim, sozinha. A minha mãe também decidiu morrer sozinha e de certa forma o meu pai também. Agora sou eu quem morre para o mundo.
O tempo voa, leva-me com ele. Prometi à minha tia que ainda vou esta semana ver o sítio onde o meu pai foi sepultado. Não quero ir, porque isso já de nada adianta. Queria apenas que ele respondesse às minhas perguntas, que me explicasse porque nos destruímos mutuamente se o amor que havia entre nós suplantava toda e qualquer ferida que pudesse abrir-se em nós. Quero tanto saber os motivos que o levaram a afundar-se no álcool, porque sinto-me muito culpada por isso. Haverá razões para isso?
É estranho, mas sinto que o meu pai me observa.
Ricardo
O chat acabou mesmo por dar os seus frutos. Uns foram frutos muito doces, outros foram frutos muito podres. Neste momento o meu pai está sentado à minha frente e faz perguntas sobre a minha sexualidade. É isso, o meu pai descobriu que sou gay. E eu sou? Sou. Pronto, por agora sou.
Aquele rapaz mais velho que conheci no chat pôs-me louco com aquela língua no meu pénis. Não deixo de pensar nisso enquanto o meu pai continua a discursar.
E que vou dizer? Digo a verdade. “Sim pai, já tive experiências sexuais com rapazes”. Ele pergunta se não é apenas uma fase, eu digo logo que não é. Mas ele não quer acreditar.
O outro rapaz que também conheci na net deu-me muito prazer no carro dele, quando fomos para o meio do mato ontem. Foi uma noite louca, mas acabou por me magoar enquanto fazíamos anal. Já nem me lembro do nome dele. O meu pai continua a fazer perguntas enquanto agita no ar as folhas que imprimiu do meu computador. Todos os meus registos de conversas na net estão ali na mão dele. Naqueles registos estão todas as minhas confidências sexuais, as “não sexuais”, aquelas sobre a minha família, as outras sobre os meus amigos. Isto é pior que tirarem-me a roupa em praça pública. Estou nu perante o mundo. O meu pai diz agora que a minha mãe ainda não sabe de nada e que foi através de um telefonema anónimo que lhe contaram sobre a minha orientação sexual. Foi o Nuno, de certeza, para se vingar dos pontapés que lhe dei na discoteca. Eu por outro lado, para o esquecer, arranjei outras fontes de prazer.
Aquele mais velho da net chegou a avisar-me para os perigos deste mundo, enquanto me fazia um broche na sua casa. É casado e tem dois filhos, um quase da minha idade. É um gay frustrado. O meu pai não desiste, nem com a minha confissão. “Sim, isso é tudo verdade.”
Mas o que sou eu afinal? Quem sou eu? Em menos de uma semana já tive sexo com três conhecidos da net. O meu pai descobre tudo sobre mim e eu não me importo. Pior, aquele Daniel, o anormal lá da minha escola, avisou-me que já correm rumores de mim na minha turma, sobre a minha orientação sexual. Mas a única rapariga que eu namorei, há mais de dois anos, parece que não quer acreditar nisso. E claro, os meus amigos defendem-me com unhas e dentes. Mas aquele Daniel percebeu logo que eu estava a mentir quando disse que não sou gay. Mas o que é isto afinal? Uma conspiração contra mim?
Se realmente é algo contra mim, então não está a funcionar, pois não me sinto minimamente mal com isto.
O meu pai desistiu, saiu do meu quarto a chorar e cortou-me o cabo da Internet. Não me interessa, tenho alguns contactos no telemóvel. Sou gay e depois? A minha vida tem tido mais prazer nas últimas duas semanas do que alguma vez eu pudesse ter imaginado.
O meu treino de futebol vai ocupar-me algumas horas agora, assim posso esquecer o assunto que parece querer corromper a minha vida. Entro no balneário, como sempre os meus colegas de equipa chegaram primeiro. Há algo estranho, como se eu tivesse algo na cara, eles olham para mim com repulsa. Não me falam e não percebo porquê, até nem joguei mal no último jogo. Tento não ligar a isso e preparo-me para vestir o meu equipamento. O meu melhor amigo e capitão de equipa avança para mim enquanto diz algo que me põe a tremer: “Ricardo, sai. Não te dispas. Não queremos um paneleiro aqui…”
Nesse mesmo instante o meu mundo desabou, senti um enorme peso nas costas. Afinal parece que ser gay não é assim tão bom como eu pensava.
Daniel
“Pois é Ricardo, eu sou o anormal de serviço não é? Ficas a saber que no meu bolso está aquilo com que era suposto ferir-te, mas não o vou fazer. E sabes porquê? Porque tu vais acabar por te ferir a ti próprio e assim eu não tenho problemas legais por te fazer um corte simpático com uma faca lá de casa. Não falas, não é? Podes fingir que não ouves, mas devias dar mais atenção aos boatos que correm sobre ti. Dizem que és gay. Serás? Porque é a tua boca diz “não” se os teus olhos dizem “sim”? És gay Ricardo. Não vejo mal nenhum nisso, pelo menos assim não corres o risco de procriar e o mundo fica um sítio bem melhor sem pessoas do teu sangue a vaguear por aqui. Tens noção de que eu te odeio, não tens? Não é bem odiar, é mais ter nojo, como se tem das baratas que povoam as instalações podres dos edifícios. A tua vida vai tornar-se num desses edifícios, sabes?”
Foi quase um monólogo que mantive com aquele palhaço. E no fim ele foi embora como se eu tivesse sido invisível, como se não tivesse nada. O que me alegra é que eu sei que tudo o que eu disse são verdades quase absolutas e que bem lá no fundo ele sente que vai acabar por me pedir ajuda. Começo a gostar do Ricardo. A gostar das fragilidades dele. Sim, porque eu não sou gay. Odeio esse tipo de pessoas que pensam que a diferença deve marcar o mundo. Mas e eu? Eu também sou diferente? Quem sou eu?
Este espelho que me reflecte agora está a querer mostrar-me quem sou. Mas este espelho não mostra o meu interior e ainda por cima reflecte algo que não sou eu. Não interessa, sorrio para aquele da imagem reflectida e vou embora. Mas ainda nem sei para onde vou.
Talvez deva visitar o meu falecido psiquiatra no cemitério. Ele iria adorar ter ali a presença do seu paciente mais problemático. Ou talvez deva agora aproveitar para voltar a visitar o Ricardo, afinal o pai dele já sabe das orientações sexuais do seu querido filho. Bastou-me fazer um telefonema anónimo para casa dele e a história rolou por si. Por outro lado, o Dr. António de certeza que me observa lá de cima, sinto isso a cada passo que dou. Mas... o Ricardo necessita da minha preciosa ajuda agora, ou não? E eu preciso de o humilhar…