Quando te dei a opção de ver alguém que tivesses deixado para trás, escolheste ver a Raquel e o Daniel, mas não percebes porque te mostro as vidas do Pedro e do Ricardo, não é? Com o tempo vais perceber. Acredita em mim.
Estás feliz com o que vês da Raquel? O Daniel está fora de controlo e tu sabes bem que podias ter lutado mais por ele. Afinal ele era o teu “géniozinho” preferido. Mas não te sintas mal, agora já nada podes fazer senão observar o desenrolar das suas vidas.
Vamos espreitá-los então...
Pedro
Quem sabe da minha tentativa de suicídio olha para mim como se eu fosse muito frágil, como se eu me fosse estilhaçar a qualquer desleixo de zelo da parte de quem me rodeia.
Não estive muito tempo na psiquiatria, apenas o suficiente para ser confrontado por um psiquiatra que me fez prometer não repetir este acto de morte. Ainda assim, na noite em que lá dormi, conheci um rapaz um bocado estranho, que falou comigo de uma forma um pouco arrogante. Chamava-se Daniel e estava lá internado por ter um distúrbio mental qualquer. Fosse o que fosse, preferi ignorar e fingir-me simpático.
A Joana, o meu amor, já veio a minha casa. Pareceu-me bem mais tranquila mas com algumas dúvidas em relação ao que eu fiz. Não falámos muito, pois parece que continua a haver um vazio enorme entre nós, quando há tanto para falar, para perguntar, para explicar... Mas agora vou dar-lhe tempo até que se sinta à vontade para me confrontar com todos os assuntos que nos estão a afastar.
A minha mãe agora passa no meu quarto de dez em dez minutos e controla tudo o que eu trago para aqui. O medo de que eu possa repetir aquilo é enorme, apesar de eu já ter prometido que não o vou fazer. Mas eu compreendo a exagerada preocupação dela, pois, depois da morte do meu pai, há dois anos, este foi talvez o maior desgosto da sua vida. Já estou a tremer e a tentar segurar as lágrimas, mas não consigo evitá-las. De cada vez que me lembro do meu pai, choro como naquele dia...
Eu estava na escola, triste, porque tinha acabado de confessar o meu amor à Joana e ela simplesmente tinha ignorado aquilo que eu sentia. Fui sentar-me sozinho num banco do jardim. Quando o meu telemóvel tocou eu nem imaginava que iria receber uma notícia daquelas. Era a minha mãe, que chorava, soluçava e falava a um ritmo assustador. Percebi as palavras essenciais, “o pai teve um acidente e morreu”. Os gritos que eu soltei depois de ouvir isso alertaram toda a escola. Os meus amigos encontraram-me num estado de tristeza e angústia indiscritível. Com a fúria que me invadiu tinha rasgado as minhas roupas, tinha-me arranhado... Foi a maior dor que senti em toda a minha estúpida e curta vida.
A partir daí as pessoas começaram a sentir pena de mim. A Joana começou a namorar comigo uma semana depois. Eu sei, eu sei que foi por pena. Mas também sei que depois disso ela se apaixonou por mim a um nível atroz.
O meu telemóvel toca, assustando-me. O que me assustou não foi o toque, mas sim o nome que pisca incessantemente no ecrã.
Raquel
A noite de hoje foi diferente. Com leves toques de humor sinto-me confortável onde estou. Nesta cama de hotel tenho dois homens a ressonar ao meu lado, adormecidos depois da sessão de sexo louco que lhes proporcionei. Hoje estava inspirada, posso admiti-lo. Hoje foi a primeira vez que fiz dupla penetração, ainda bem que foi com estes dois porque pelo menos pagaram bem para isso e são minimamente apresentáveis. Estava a pensar pedir o número de telemóvel aqui ao que ressona à minha direita. Pois, hoje estou com o sentido de humor em alta.
Agora é só esperar que acordem para que depois possa ir embora. A noite de hoje já está ganha. Hoje fui uma puta de luxo.
Agora, o meu quarto. Estava tão bem naquele quarto de hotel, mas agora cá estou eu de volta a esta toca onde moro sozinha, onde a chuva por vezes se infiltra quando é muito forte, onde o calor me sufoca no Verão. Quando vim para aqui pensei que fosse apenas temporariamente, até arranjar dinheiro para pagar o aluguer de outra casa, mas as sucessivas despesas com a universidade e comigo própria atraiçoaram tudo isso. Acabei por me habituar à ideia de viver sem condições nenhumas, numa casa em que o quarto fica no mesmo sítio que a cozinha... Hoje já nem sonho em sair daqui, não vale a pena.
O Tiago é quem me vai ajudar a fazer aquele trabalho que implica mexer em muitos programas de edição de imagem. Eu estou no curso de psicologia, ainda nem percebi porque tenho que saber trabalhar com essas coisas. Sei pouco sobre o Tiago, apenas que é dos alunos mais discretos da minha turma mas que foi um daqueles em que eu reparei desde o primeiro segundo. Se quiser ser fútil posso dizer que ele é giro, que tem estilo e que não me importava nada de trabalhar com ele de outras formas. O meu sentido de humor continua a fazer-se sentir. Por agora o melhor é concentrar-me, que ele já aí vem e convém que eu esteja minimamente concentrada no que tenho que fazer.
Depois de quase três horas fechada com o Tiago naquele compartimento da biblioteca, posso dizer que já sei mais algumas coisas sobre ele. Surpreendentemente ele é muito falador, divertido mas um pouco recto no que toca a certos assuntos mais controversos da nossa sociedade actual, como a homossexualidade. Contou-me que chegou a bater ao irmão quando ele se assumiu gay perante toda a família. Nem quero imaginar se ele desconfiasse sequer que eu passo as noites a vender o meu corpo, que sou uma puta. O que me espanta mais é que ele, mesmo como estudante de psicologia, tenha ainda uma mente tão fechada. Apesar de tudo, foram umas horas muito bem passadas e acabei por descobrir que fazer uma simples apresentação de slides muito mais produzida não custa assim tanto.
Estás feliz com o que vês da Raquel? O Daniel está fora de controlo e tu sabes bem que podias ter lutado mais por ele. Afinal ele era o teu “géniozinho” preferido. Mas não te sintas mal, agora já nada podes fazer senão observar o desenrolar das suas vidas.
Vamos espreitá-los então...
Pedro
Quem sabe da minha tentativa de suicídio olha para mim como se eu fosse muito frágil, como se eu me fosse estilhaçar a qualquer desleixo de zelo da parte de quem me rodeia.
Não estive muito tempo na psiquiatria, apenas o suficiente para ser confrontado por um psiquiatra que me fez prometer não repetir este acto de morte. Ainda assim, na noite em que lá dormi, conheci um rapaz um bocado estranho, que falou comigo de uma forma um pouco arrogante. Chamava-se Daniel e estava lá internado por ter um distúrbio mental qualquer. Fosse o que fosse, preferi ignorar e fingir-me simpático.
A Joana, o meu amor, já veio a minha casa. Pareceu-me bem mais tranquila mas com algumas dúvidas em relação ao que eu fiz. Não falámos muito, pois parece que continua a haver um vazio enorme entre nós, quando há tanto para falar, para perguntar, para explicar... Mas agora vou dar-lhe tempo até que se sinta à vontade para me confrontar com todos os assuntos que nos estão a afastar.
A minha mãe agora passa no meu quarto de dez em dez minutos e controla tudo o que eu trago para aqui. O medo de que eu possa repetir aquilo é enorme, apesar de eu já ter prometido que não o vou fazer. Mas eu compreendo a exagerada preocupação dela, pois, depois da morte do meu pai, há dois anos, este foi talvez o maior desgosto da sua vida. Já estou a tremer e a tentar segurar as lágrimas, mas não consigo evitá-las. De cada vez que me lembro do meu pai, choro como naquele dia...
Eu estava na escola, triste, porque tinha acabado de confessar o meu amor à Joana e ela simplesmente tinha ignorado aquilo que eu sentia. Fui sentar-me sozinho num banco do jardim. Quando o meu telemóvel tocou eu nem imaginava que iria receber uma notícia daquelas. Era a minha mãe, que chorava, soluçava e falava a um ritmo assustador. Percebi as palavras essenciais, “o pai teve um acidente e morreu”. Os gritos que eu soltei depois de ouvir isso alertaram toda a escola. Os meus amigos encontraram-me num estado de tristeza e angústia indiscritível. Com a fúria que me invadiu tinha rasgado as minhas roupas, tinha-me arranhado... Foi a maior dor que senti em toda a minha estúpida e curta vida.
A partir daí as pessoas começaram a sentir pena de mim. A Joana começou a namorar comigo uma semana depois. Eu sei, eu sei que foi por pena. Mas também sei que depois disso ela se apaixonou por mim a um nível atroz.
O meu telemóvel toca, assustando-me. O que me assustou não foi o toque, mas sim o nome que pisca incessantemente no ecrã.
Raquel
A noite de hoje foi diferente. Com leves toques de humor sinto-me confortável onde estou. Nesta cama de hotel tenho dois homens a ressonar ao meu lado, adormecidos depois da sessão de sexo louco que lhes proporcionei. Hoje estava inspirada, posso admiti-lo. Hoje foi a primeira vez que fiz dupla penetração, ainda bem que foi com estes dois porque pelo menos pagaram bem para isso e são minimamente apresentáveis. Estava a pensar pedir o número de telemóvel aqui ao que ressona à minha direita. Pois, hoje estou com o sentido de humor em alta.
Agora é só esperar que acordem para que depois possa ir embora. A noite de hoje já está ganha. Hoje fui uma puta de luxo.
Agora, o meu quarto. Estava tão bem naquele quarto de hotel, mas agora cá estou eu de volta a esta toca onde moro sozinha, onde a chuva por vezes se infiltra quando é muito forte, onde o calor me sufoca no Verão. Quando vim para aqui pensei que fosse apenas temporariamente, até arranjar dinheiro para pagar o aluguer de outra casa, mas as sucessivas despesas com a universidade e comigo própria atraiçoaram tudo isso. Acabei por me habituar à ideia de viver sem condições nenhumas, numa casa em que o quarto fica no mesmo sítio que a cozinha... Hoje já nem sonho em sair daqui, não vale a pena.
O Tiago é quem me vai ajudar a fazer aquele trabalho que implica mexer em muitos programas de edição de imagem. Eu estou no curso de psicologia, ainda nem percebi porque tenho que saber trabalhar com essas coisas. Sei pouco sobre o Tiago, apenas que é dos alunos mais discretos da minha turma mas que foi um daqueles em que eu reparei desde o primeiro segundo. Se quiser ser fútil posso dizer que ele é giro, que tem estilo e que não me importava nada de trabalhar com ele de outras formas. O meu sentido de humor continua a fazer-se sentir. Por agora o melhor é concentrar-me, que ele já aí vem e convém que eu esteja minimamente concentrada no que tenho que fazer.
Depois de quase três horas fechada com o Tiago naquele compartimento da biblioteca, posso dizer que já sei mais algumas coisas sobre ele. Surpreendentemente ele é muito falador, divertido mas um pouco recto no que toca a certos assuntos mais controversos da nossa sociedade actual, como a homossexualidade. Contou-me que chegou a bater ao irmão quando ele se assumiu gay perante toda a família. Nem quero imaginar se ele desconfiasse sequer que eu passo as noites a vender o meu corpo, que sou uma puta. O que me espanta mais é que ele, mesmo como estudante de psicologia, tenha ainda uma mente tão fechada. Apesar de tudo, foram umas horas muito bem passadas e acabei por descobrir que fazer uma simples apresentação de slides muito mais produzida não custa assim tanto.
Ricardo
O Nuno gosta de Britney Spears e delira ao som de Madonna. Penso nisso enquanto subo estas escadas do shopping para ir almoçar com ele. É o meu primeiro encontro deste género e está a deixar-me num estado nervoso como eu não sentia há muito tempo. Já o vejo, em pé junto ao restaurante de fast-food onde vamos almoçar. Sinto um frio na barriga. No pouco espaço de tempo que demoro até chegar a ele, os meus olhos procuram evitá-lo e a minha mente processa todas aquelas linhas de texto do messenger. Aqui estou eu mesmo em frente a ele e sem saber como o cumprimentar. Ele acaba por estender a mão, pergunta se está tudo bem e depois avança secamente para dentro do restaurante. Eu sigo-o e agora sinto os nervos a disparar, sinto-me como se estivesse a flutuar…
O olhar dele intimida-me e aqueles sorrisos nada inocentes ainda me deixaram mais nervoso. Talvez por isso eu não tenha comido quase nada. Agora que andamos a passear pelo shopping, já me sinto mais à vontade e até consigo manter uma conversa mais ou menos interessante. Já aproveitei para o observar melhor. Ele veste-se bem, não tem gestos exagerados e nem é demasiado extravagante. Fico muito contente por ele não ter aquele ar de “bicha” que eu odeio ver num rapaz. Às vezes consigo ser uma pessoa mesmo muito fútil e confesso que não admiro muito isso em mim.
O meu primeiro sinal de excitação desde que aqui estou. Estávamos a ver roupa numa loja, ele pôs-se atrás de mim e soprou-me no pescoço. Nesse mesmo instante senti uma vontade enorme de o beijar mesmo ali. Os meus pensamentos já nem conseguem ser racionais, estamos constantemente a trocar olhares e sorrisos provocantes enquanto deambulamos pelas lojas. Subitamente ganho ainda mais excitação. Ele convida-me para ir a casa dele, onde podemos estar sozinhos. Agora.
O quarto dele. A cama dele. A mão dele. Eu e ele sentados, inertes. As nossas mãos entrelaçadas. Madonna canta “Frozen” no rádio. Aquele olhar que me põe nervoso. A aproximação dos corpos, o beijo. O meu primeiro beijo com um rapaz. Deixo-me levar pela excitação. Ele vai mais rápido que eu e ainda bem, porque assim estou muito mais à vontade. Ainda não estou a acreditar, solto um leve riso enquanto ele desabotoa as minhas calças. Faço o mesmo e sinto a excitação dele, aquilo a pulsar na minha mão. Aquilo. Estamos a ir depressa demais mas eu estou a adorar assim. Ele continua sentado na borda da cama mas eu já me ajoelhei no chão, puxo as calças dele, depois os boxers... estou pronto para começar.
Isto é enorme. Os meus pensamentos fazem-me rir. É bom demais, mas não sei se estou a ir bem. Ele tem os olhos fechados e morde os lábios enquanto suspira e me agarra o cabelo. Sinto-me preso num momento intenso de lascívia. Sinto a excitação dele aumentar na minha boca. No fundo é tudo uma questão de sentir. Ele diz-me para parar enquanto me agarra e deita na cama. Os nossos corpos nus são tão diferentes mas tão belos. Já sei o que ele quer agora, mas eu recuso dizendo que ainda não estou preparado para isso. Ele sorri com uma ponta de desilusão mas começa logo a brincar comigo, percorre o meu corpo com a língua. A lascívia aumenta e a minha respiração torna-se ofegante à medida que ele faz mais e mais. Eu agarro agora o cabelo dele também, quase que o forço a fazê-lo. Sinto-me tão bem assim.
E repetimos, uma e outra vez, enquanto Madonna continuava a cantar. Em contínuas explosões de prazer cheguei a uma certeza. Eu gosto de rapazes. Agora que caminho para casa não consigo parar de sorrir e de pensar em como foi uma tarde muito bem passada. Já nem me importo de ter perdido o trabalho que devia ter feito com a Rita. Se ela imaginasse que eu a troquei por sucessivas sessões de sexo oral com um rapaz da net...
Daniel
Não é esquizofrenia, não é dupla personalidade. O que tenho então? Algo a que os médicos decidiram dar um nome estúpido. Prefiro pensar que sou apenas diferente... e especial.
O meu pai nem quer saber se eu estou aqui no hospital ou não e ainda bem, pois não me apetecia nada tê-lo por perto agora. A minha mãe, sempre muito empenhada, vem cá todos os dias e está sempre a fazer perguntas. Claro que eu respondo sempre que estou bem, que não vou partir mais espelhos e que gosto de estar aqui. A única verdade que eu digo é mesmo aquela acerca de gostar de estar aqui. Isto é um mundo à parte e eu gosto de viver nele, mas não vou dizer que não gostava de ter um amigo agora aqui comigo. Hoje aquela minha vizinha e amiga veio visitar-me. Por acaso ainda é das poucas pessoas a quem eu dou algum valor. Na minha turma são todos uns palhaços sem consciência. A última vez que os vi foi quando desatei aos murros ao meu colega de carteira porque ele me chamou “anormal”. Devido aos procedimentos internos do conselho directivo, isto nas palavras caras deles, tive que ser afastado da escola durante uma semana. Escusado será dizer que não fiquei muito comovido com isso.
Aquele palhaço é que ainda se vai comover bastante, especialmente quando eu o encontrar e fizer dele a minha primeira vítima mortal do jogo que está prestes a começar.
Hoje não tomei os medicamentos. Acho que se nota um bocado.
Raquel
Desço a rua já preparada para a acção. Este top curtíssimo nem sequer combina com esta mini-saia velha e gasta. As lantejolas, sempre comigo, brilham quando os carros passam por mim. A maquilhagem está demasiado exagerada e berrante. Susto. Alguém chama o meu nome. Alguém corre para mim. Não posso estar a ver bem. É o Tiago. “Trouxeste o CD errado para o trabalho!”, diz-me ele enquanto me olhar de cima a baixo. Não deu para disfarçar. Não sei o que dizer. Não queria estar aqui. Ele não devia estar aqui. Os carros continuam a passar. Não faço a mínima ideia de como ele descobriu onde eu moro. Não faço a mínima ideia de nada. Acho que vou começar a correr. Vou fugir daqui, fugir da vergonha de admitir aquilo que me preparo para fazer nas próximas horas.
Posso contar-lhe a verdade? Invento uma desculpa? Fujo daqui?