quinta-feira, 14 de junho de 2007

Capítulo IX

O teu corpo já não é corpo. A tua alma já não é alma. Estás vazio, pois completa-se a tua ascensão. Despede-te deles. António, já percebeste o porquê da existência do Pedro, da Raquel, do Ricardo e do Daniel. Daqui para a frente não estarei mais contigo. Sozinho, vaguearás pelos meandros da existência, do espaço, do tempo. Onde estás? Para onde irás? Como? Quando? Nada tem resposta aqui, porque tu também não podes fazer perguntas. A tua ascensão completou-se, és livre. Vai António. Liberta-te.


Pedro
Eu e a minha mãe. Um jantar calmo, sem grandes conversas. A minha casa. Sim, a minha casa. Já não é a psiquiatria. Já não é aquele medo de poder ter um problema. É a minha casa, meu refúgio, minha serenidade. É um jantar triste. A minha mãe evita falar para mim e nem sequer faz um esforço para me olhar de frente. Respiro fundo, como se quisesse chamar a atenção dela. Não funciona. Levanto-me e caminho até à janela que dá para uma rua pouco movimentada. A noite acalma-me, penso na minha vida.

A Joana deixou-me de vez. Sei que vou ter que viver com isso até ao fim dos meus dias. De qualquer forma a minha vida já está completamente destruída. Mas sobro eu, imortal vencedor deste jogo a que me propus. Podia tomar mais uma valente dose de comprimidos hoje, mas não o vou fazer. Não vale a pena. E porquê? Porque não quero morrer. Não, não quero. O que quero, o que mais desejo, é ficar vivo a sofrer por aqueles que feri. A Joana, meu amor, deixou-me de vez. A Joana deixou-me de vez, meu amor. Mas porque o fizeste amor? Porque o fizeste?

A Joana morreu. Uma amiga encontrou-a já sem vida no quarto. À sua volta caixas de comprimidos vazias, uma garrafa de whisky aberta, a morte. Amor, quem és tu? Que conseguiste o que eu não consegui... Porquê?

Agora já não te tenho, é uma certeza. E nem sequer te acompanhei na tua última viagem. Não te fui levar àquele cemitério. Não fui em pessoa, mas fui em sonho, em alucinação.

Eu não estou a enlouquecer, mas sinto-me feliz. Sinto. Morreste, não és minhas mas também não serás de mais ninguém. Lembro-me de me chamares obsessivo. E eu era. E eu sou. E eu serei, sempre por ti. Tu nunca me amaste, Joana. Não o dizias, porque não o sentias. E quando o dizias, era porque mentias.

E as minhas tentativas de suicídio acabaram por te matar.

Descansa em paz.

Já quase me esquecia de pensar isto, mas hoje fiz um exame profundo com a minha psicóloga nova. Penso que era um teste de personalidade. Para a semana vamos saber se sou ou não um psicopata. Tu já sabes a resposta, amor...




Raquel
Hoje apareceu mais uma da minha idade. Veio sozinha, como eu, chegou e fez muita força para não começar a chorar à minha frente. Contei-lhe um pouco da minha história à medida que ela fazia perguntas. No fundo tentei mostrar-lhe que ser uma puta também tem as suas vantagens. Mas não a convenci. Vi como tremia quando apareceu o primeiro cliente. Vi como vinha abatida quando a sessão acabou. Vi como eu me espelhava nela.

Eu nunca vou sair deste mundo. Sinto isso a cada euro que ganho. E já pouco me importo com o que as pessoas possam pensar.

Hoje estou mais despreocupada, já não tenho tantas contas para pagar, por isso relaxo enquanto me encosto a esta parede fria. Vem um miúdo a descer a rua, de olhos postos no chão, como se a vergonha o impedisse de olhar o mundo de frente. Sinto uma empatia estranha com ele. Sorrio quando ele passa, mas ele nem olha para mim. Pára. Simplesmente pára à minha frente e diz que quer sexo. Surpreendeu-me.



Ricardo
Aceitei o Nuno de volta, como amigo. Mas quase que sinto que já me arrependi. Eu e o Nuno somos muito diferentes. Hoje passamos o dia no shopping com mais dois amigos dele, que tentaram à força tornarem-se meus amigos. Mas não deu. Odiei esta tarde com eles, pois nunca vi coisas mais bichas, mais histéricas, sempre aos gritinhos quando passava um rapaz mais giro. Odeio isto. Odeio este mundo. Não quero ser assim, quero ser genuíno, ser eu, ser gay mas ser eu. Mas será que quero ser gay? Será que me sinto preparado para aceitar esta vida?

É na procura de respostas a essas perguntas que desço agora esta rua. Como diria um qualquer amigo meu, “vou às putas”. É o meu derradeiro teste. Desço a rua de olhos postos no chão, sinto vergonha de enfrentar o mundo de frente. Espreito pelo canto do olho e vejo uma delas encostada a uma parede. Abrando o passo e paro junto dele, digo que quero sexo. Ela diz-me preços. Aceito, até é menos do que eu esperava. Atravessamos a rua juntos e entramos numa pensão barata. Num quarto que cheira a mofo. Ela deita-se na cama nua. Dispo-me depressa. Ela quase me obriga a ser mais rápido. Ela é nova e isso faz-me confusão, só deve ter mais um ou dois anos que eu. Começa a brincar comigo, tenta excitar-me, com as mãos, com a boca, com o corpo... mas não dá. Não consigo. Não sinto prazer. As lágrimas correm-me pela face, umas de alegria, outras de tristeza. Olho-a finalmente nos olhos e exclamo “Eu sou gay!”. Como se isso fosse a melhor coisa do mundo. Ela não sabe o que fazer. Fica atrapalhada, mas então eu pego-lhe nas mãos e digo para parar, enquanto começo a contar a minha razão de estar ali.

Nesta noite fomos os melhores amigos. Secretamente afastados do mundo que corrompe as nossas almas. Ela é a Raquel, eu sou o Ricardo. Amanhã não somos nada. Apenas dois seres a vaguear por estas ruas apinhadas de gente euforicamente vidradas nas suas estúpidas vidinhas.



Daniel
Arruinei a minha vida por completo. Hoje faço capa em muitos jornais, tornei-me mediático quando não o queria ser. Mas devia ter pensado nisso antes de começar a atacar com insultos os jornalistas que foram a minha casa fazer aquela reportagem estúpida. Eu quis assim. Se bem me lembro, tomei muitos cafés para aumentar o nível de cafeína no meu corpo e fazer assim disparar os meus instintos. Não funcionou como eu esperava. Senti-me mal, incapaz de quase falar, mas acabei por partir uma câmara do jornalista que insistia em filmar-me enquanto eu vomitava no chão da sala. O meu pai afastou-se, incrédulo, sem saber o que fazer. A minha mãe apoiou-me, como quase sempre fez ao longo da minha vida. Não fui tão violento como esperava, mas agora sou chamado de louco por esses jornais fora. Tablóides irritantes... eu não sou louco. Não sou, pois não?

Talvez seja. Talvez deva pensar nos espelhos que já parti por me considerar doente de dupla personalidade. Talvez deva pensar nas pessoas que já feri fisicamente, emocionalmente e por aí fora... Talvez agora eu perceba que a minha vida não anda para a frente, limita-se a estar estagnada num ponto em que eu não me consigo definir, em que não consigo tomar decisões acertadas nem afastar-me do espectro de sentir que dentro de mim há uma pessoa melhor, mais dócil, mais carente, menos fria, menos arrogante, menos violenta.

Eu sou o Daniel e o outro que está dentro de mim quem é? Tenho que lhe arranjar um nome. Pelo menos para que possa morrer seguro de que o meu outro eu também teve um nome.

Pedro
A minha mãe quer inscrever-me num grupo de auto-ajuda para pessoas que já tentaram o suicídio. A ideia não me parece completamente disparatada, mas por outro lado não sei se estou preparado para enfrentar isso.

O Pedro deve inscrever-se no grupo?
Sim
Não
Free polls from Pollhost.com


Raquel
A minha vida é cada vez mais uma caixinha de surpresas. Hoje a minha tia ligou-me para me oferecer um quarto lá em casa. Não sei se quero ir viver naquele ninho de cobras. Mas a verdade é que teria melhores condições e nem ficava assim tão longe da universidade, ainda por cima agora que as aulas estão quase a acabar. A minha alternativa era procurar outra casa por aqui e talvez arranje dinheiro para isso. Não sei o que fazer e a vida lá fora continua.


A Raquel deve aceitar a oferta da tia?
Sim
Não
Free polls from Pollhost.com