Espanta-te o que consegues ver daqui de cima, não é? Continuamos...?
Vamos então...
Pedro
Sufoco, sinto a garganta arranhada, abro os olhos. Tenho um tubo a entrar-me pelo nariz. Estou no hospital. O tubo entra-me pelo nariz, arranha-me a garganta e acaba no estômago. Lavagem de estômago, com muito carvão dentro de mim.
Já me lembro. A minha mãe encontrou-me no meu quarto, afogado em vómito e com as caixas de comprimidos todas vazias. Lembro-me de ela começar a gritar, mas depois tudo é um grande vazio na minha cabeça. E agora aqui estou eu sozinho neste hospital.
Uma enfermeira já veio perguntar se está tudo bem, ao que eu respondi que sim. Que cínico... como é que pode estar tudo bem? Acabo de me lembrar de outra coisa. Liguei para o meu amor antes de perder os sentidos, mas não sei exactamente o que lhe disse. Sinto-me fraco e os olhos pesam-me, parece que vou voltar a dormir.
Esta maneira de pegar na minha mão é inconfundível. Abro de novo os olhos e vejo o meu amor aqui ao meu lado, as nossas mãos entrelaçadas. A primeira pergunta dela é “porque é que fizeste isto?”. Não consigo deixar de sorrir, tê-la aqui ao meu lado é o melhor que eu podia querer para mim neste momento. Estou vivo, estou vivo. Afinal, que me passou pela cabeça? Não consigo responder a isso...
Temos pouco tempo para conversar e ainda menos vontade de falar, parece que não é a altura certa. Enquanto desvio o olhar para evitar os olhos tristes da Joana, vejo que a minha mãe vem a andar apressadamente pelo corredor enquanto fala com um médico que gesticula ainda mais apressado. Quando a minha mãe chega ao pé de mim o seu olhar causa-me um impacto desmedido, sei que ela está a tentar mostrar muita força mas que lá bem no fundo eu lhe preguei um susto de morte. E para piorar a tensão deste momento, as notícias que ela me trás não são as melhores. “Vais ser transferido para a psiquiatria e não vais ter direito a visitas nas próximas vinte e quatro horas”, diz-me enquanto pega na mão da Joana e a afasta para longe de mim, como se eu tivesse uma doença contagiosa.
Vejo as duas ir embora sem mais uma única palavra pronunciada. Subitamente dentro de mim percebo: eu morri, pelo menos na consideração dos que me amam.
Raquel
Recordo com intensidade aquela noite em que o meu pai me deixou marcada nas costas, de tanta pancada que me deu com um cinto. Naquela noite o que lhe corria nas veias não era sangue, era álcool. Recordo ainda com mais intensidade que entre gritos e gemidos de dor vi a minha mãe ser violada por aquele monstro que até aí tinha sido o exemplo que eu queria para mim. Ele a rasgar-lhe as roupas e ela a ceder à violência dos gestos e das palavras. A minha mãe não aguentou nem mais um dia e pôs fim à vida. Chamaram suicídio à sua morte, eu chamo-lhe homicídio inconsciente... do qual o meu pai foi o carrasco. Eu não aguentei nem uma semana, vim embora e reconstruí a minha vida do zero. Ninguém sabe onde estou, pois fugi sem um único aviso ou despedida. Agora que já passou mais de um ano, posso dizer que estou bem aqui e que foi sem dúvida nenhuma a minha melhor opção.
Já falta pouco para a biblioteca fechar e eu ainda não encontrei nem metade da matéria que preciso para o meu trabalho daquela cadeira que nunca ninguém faz à primeira. Todos os dias são complicados para mim, mas o de hoje está mesmo a ser muito difícil, talvez porque não consigo manter-me concentrada num assunto por mais de vinte segundos e porque me lembrei que hoje o meu pai faz anos, apesar de tudo não consigo esquecer-me disso. Se calhar devia ligar, dizer que está tudo bem e que sei que ele não é o monstro em que se transformou, que ainda sei que ele pode voltar a ser quem era. Mais importante, gostava de saber o que o transformou, falar com ele sem ressentimentos, sem culpas... e contar-lhe naquilo que me transformei.
A biblioteca fechou e eu não encontrei tudo o que precisava. Agora vou à pressa para casa, visto-me a preceito e volto a descer a rua, onde procuro clientes sedentos de uma noite de prazer. No fim da noite tenho uns trocos no bolso. Com alguma sorte e se apanhar novamente aqueles dois clientes que querem sempre a dobrar, talvez arranje dinheiro suficiente para pagar a prestação das propinas da semana que vem.
Ricardo
Eu não sou assim. Volto a fechar os olhos com força e repito a frase. Não, eu não posso gostar de rapazes. Quero ser normal, quero ser normal... Não, já vi que não vale a pena o esforço. Estou aqui sentado no banco do jardim das traseiras do meu prédio e aquele miúdo que já passou por mim mais de três vezes está a deixar-me excitado. Já reparei nele muitas vezes, por isso adoro vir para este cantinho da natureza. Quando chegar a casa o mais provável é satisfazer-me enquanto relembro aquela imagem dele a tirar a t-shirt durante uma partida de futebol ali mais à frente. Imagino... ele deitado na minha cama e eu a percorrer o seu corpo, a beijá-lo da cabeça aos pés... e depois...
Eu não devia pensar nestas coisas mas parece que não sou capaz de me controlar.
O portátil aqui em cima dos meus joelhos continua a exibir aquela sala de chat onde todos procuram um engate fácil. Eu não tenho tido sorte. O último com quem falei parecia saído de um filme pornográfico, pois só fazia perguntas sobre o tamanho da minha “coisa” e outras questões impertinentes sobre o meu corpo. E eu ainda não me sinto à vontade para esse tipo de conversas, vou mesmo continuar à espera que apareça alguém decente com quem eu possa falar sobre este meu receio de ser um anormal desenquadrado da sociedade em que vivo. O programa de conversação pisca incessantemente a cada nova mensagem deixada na sala “gayengates”. Numa sala de conversação com um nome destes o mais óbvio é que eu não vá mesmo encontrar alguém que queira apenas conversar. Mas o que é isto em que me estou a meter?
O miúdo voltou a passar por mim. Sinto o corpo dele a atrair-me e a excitação a tomar conta de mim enquanto alguém vem falar comigo em privado, no chat. Desta vez a conversa parece mais agradável.
Ele chama-se Nuno e mora a meia hora daqui, é da minha idade e já tem experiência com rapazes. Felizmente agora eu já sei a diferença entre um activo e um passivo, mas ele ainda me ensina mais algumas coisas. Ainda não me sinto à vontade para mostrar uma fotografia minha, ele compreende e acaba mesmo por mostrar uma dele. É muito giro e consegue manter uma conversa mais ou menos decente. Foi o suficiente para me dar ainda mais vontade de falar com ele e o que justifica que em menos de meia hora eu já o tenha adicionado aos meus contactos do messenger, coisa inédita na minha vida e um grande passo para mim. Eu sei, pareço patético.
Já passaram mais de três horas, já estou em casa e a conversa com o Nuno ainda não acabou. Até o meu número de telemóvel ele já tem. Será isto o começo de uma amizade ou apenas o meu primeiro engate virtual? Já lhe falei de quase todos os meus problemas, até de coisas que os meus melhores amigos não sabem sobre mim. Agora percebo, os meus melhores amigos nem sabem que gosto de rapazes. E agora percebo outra coisa, nem eu sei se gosto. Não poderei saber até experimentar um dia e talvez este meu “novo amigo” seja quem me vai dar esse prazer. Já lhe falei de quase tudo aquilo que não considero um problema, até da relação fria que mantenho com os meus pais. E agora volto a perceber outra coisa, os meus pais não podem sequer imaginar o que eu ando a fazer neste mundo da net, não podem sequer imaginar que quando os meus treinos de futebol acabam eu me sinto atraído pelo corpo dos meus colegas de equipa... não, eles não podem saber disso... caso contrário, a nossa relação fria tornar-se-á demasiado quente para o meu gosto.
Daniel
Murmúrios. Suspiros. Gritos. Noite. Acordo e vejo. Estou outra vez internado na psiquiatria. Tenho o meu braço direito todo ligado com o que me parece ser algo que está a tapar uma ferida. Ah, já me lembro! Parti aquele espelho lá
Cá estou eu. Eu e um espelho. Melhor, eu, um espelho e o meu outro eu lá reflectido. Agora ele sorri para mim, os seus olhos mostram-se satisfeitos por se encontrar neste sítio. Tens o que querias, tens-me onde querias. Deve ser das drogas que os médicos me deram, mas agora não sinto vontade de partir este espelho. Saio para o corredor e ouço agitação atrás de mim. Um rapaz que aparenta ser mais ou menos da minha idade vem a chorar, acompanhado por uma enfermeira que tenta explicar-lhe que o melhor para ele será ficar ali. Mentiras. Os meus olhos fitam os dele quando nos cruzamos. A enfermeira chama-me pelo nome, afinal já me conhece. Faço força para não acreditar no que estou a ouvir, ela pede-me para fazer companhia ao pobre do rapaz. Não estamos propriamente num campo de refugiados, mas sim na psiquiatria de um hospital. Apesar da força que fiz para não acreditar nas palavras da enfermeira, acabo por aceitar a ideia disparatada de fazer companhia ao rapaz que agora já acalmou o choro.
Estamos aqui os dois sentados num destes bancos desconfortáveis, ele não fala e eu aproveito para não falar também. Ele suspira, eu reviro os olhos. Não aguento mais e falo, pergunto por que está ele ali. Depois de uns soluços ele lá responde que está ali por tentativa de suicídio. Apetece-me gritar-lhe “Oh!! Vai para casa!”. Uma tentativa de suicídio parece-me sempre algo muito fútil e demasiado na moda para se considerar um caso de psiquiatria, mas acabo por fazer mais um esforço e falo com ele. Em poucos minutos fico a saber que ele se chama Pedro e que quis morrer porque a dor de ter traído a namorada começou a sufocá-lo e a corromper o seu interior, isto nas palavras do próprio. Ainda bem que fiz um esforço para o ouvir mais um pouco, pois agora percebo perfeitamente porque é que as tentativas de suicídio estão na moda.
Ricardo
O telemóvel toca incessantemente. Tenho mais de dez mensagens à espera de serem lidas. Um sobressalto. Pela minha janela já entram raios de Sol. Não acredito nisto, com toda aquela conversa na net acabei por adormecer em cima da cama e as horas passaram sem que eu desse por isso. Tinha que fazer um trabalho para a escola com a minha amiga Rita. Entre as mensagens irritadas que ela me mandou encontro uma do Nuno a perguntar porque deixei de falar na net e a convidar-me para almoçar hoje com ele. Não esperava isto. Já é quase meio-dia e eu tinha combinado com a Rita às dez na biblioteca. Mas agora apetece-me ir almoçar com o Nuno, pois é uma oportunidade única para o conhecer. Invento uma desculpa e vou almoçar com o Nuno ou tento remediar a situação e vou ter com a Rita para tentar ainda ajudá-la no trabalho?
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