terça-feira, 29 de maio de 2007

Capítulo VII

António, hoje vamos recordar alguns momentos do tempo em que ainda vivias, mesmo submerso em álcool e desespero.
Há um ano atrás tu estavas assim...


António
A minha filha desapareceu. Foi embora, de certeza que foi embora. Foi? Não sei. Nem esta garrafa de whisky me deu uma resposta, uma certeza. Não interessa. Sei que mais tarde ou mais cedo ela vai dar-me um sinal. O meu corpo está tão dormente, os meus braços quase presos a este sofá, as pernas imóveis, pesadas. O álcool adormece a minha dor, deixa-me relaxado e controla os meus instintos violentos. Segundo as normas, devia funcionar ao contrário mas eu sou mais forte.

O candeeiro aqui por cima de mim parece balançar vezes sem conta e às vezes pára, como se estivesse a brincar comigo. Lembro-me agora que hoje perdi mais um paciente. E desta vez perdi o meu géniozinho, o Daniel. Tenho pena dele, pois sei que aquela bipolaridade da sua doença ainda vai dar muito que falar. Tal como dá a mim. Não foi preciso dizerem-me que sofro disso, sempre o senti. Os meus olhos já se fecham, o álcool possui-me quase por completo e os sons da rua agitada fazem-me confusão enquanto ecoam na minha cabeça. Ah, o Daniel. Estava a pensar nele e nas semelhanças que temos. Ao estudá-lo era como se estivesse a estudar o meu próprio interior e ele, porque é inteligente demais, percebeu sempre isso.

Onde está a minha Raquel? Gostava que ela me visse agora. Talvez agora eu pudesse contar-lhe que quando abusei da mãe dela estava fora de mim, levado pelo álcool e pelos instintos da psicose de uma doença que se manifesta cinicamente. Não há marcas físicas para isto e qualquer desculpa que se dê parecerá sempre muito disparatada.

Os meus olhos tornam-se finalmente absolutamente pesados, é impossível abri-los agora, ainda que eu continue a sentir tudo à minha volta. Ainda tenho o cheiro moribundo da puta que me satisfez esta noite. O seu perfume barato e o cheiro a suor permanecem colados em mim e nas minhas coisas. E Aqui. Na minha casa. Aqui. Onde antes viveu uma família sob a harmonia falsa de uma peça de teatro, qual vida, despedaçada pelos instintos dos seus actores.



E agora António? Gostaste do que viste? Adorava que pudesses responder-me. Mas não podes fazê-lo, por isso vamos continuar a observar a vida dos nossos quatro magníficos.



Pedro
Como eu te amo Joana. Amo o teu ser, o teu corpo. Amo cada pedaço de ti. Cada sorriso, cada lágrima. Tu satisfazes-me completamente, dás-me o que eu nunca tive de outra pessoa. Os nossos corpos fundem-se em mil prazeres quando nos deitamos para ter sexo. Não é sexo, é amor puro. E eu não posso deixar-te fugir de mim, somos felizes. Não somos? Claro que sim. Também o pensas, embora não o digas.
Dormes agora como um anjo. Enquanto observo a tua respiração lenta sei que és minha e a certeza de que estávamos destinados não me abandona. É em cada gesto meu e teu que sei que nos amamos e que acima de tudo nos respeitamos. E é por isso que sei que nunca te vou trair. Essa é a certeza mais absoluta que eu tenho. Neste momento.

Acordo. Estou assustado. Estava a sonhar. A noite absorve-me e deixo-me cair novamente num sono inquieto.

À noite sucede o dia e a luz que insiste em não me iluminar. Onde está o meu amor? Que amo eu se não queria mais viver? O meu psiquiatra já não sabe mais que me perguntar. É óbvio que não tenho força suficiente para me agarrar à minha vida e ele já percebeu isso. Mas eu devia ter contado a verdade, devia ter dito que desta segunda vez não queria morrer. Será que não queria?
O tempo passa tão lentamente que sinto que estou aqui fechado há mais de uma semana, quando ainda só passaram dois dias. Dou por mim a chorar pelos cantos de cada vez que recordo imagens do meu pai. O mais estranho é sentir que só ele agora poderia perceber o meu sofrimento, pois a minha mãe e o meu amor abandonaram-me. Simplesmente deixaram de confiar em mim. Eu mereço isso. Mereço sofrer, sentir na carne o mal que fiz aos outros. E mereço provar que consigo sofrer.

Hora do banho, anuncia uma enfermeira quando passa pela minha cama. Levanto-me com uma fúria quase sobrenatural. O que é isto? Que se passa comigo? Sinto que não me controlo. Choro, mas uma parte de mim parece rir-se. Há uma perturbação dos meus sentidos, como se de repente deixasse de ver, como se a minha audição falhasse. Mesmo assim continuo a andar atrás daquela enfermeira que faz por me ignorar. Aqui estou eu. Agora sozinho, dispo as minhas roupas, ligo o chuveiro. Não estou bem. As coisas à minha volta parecem escapar aos meus movimentos, como se fugissem de mim. A água fria molha-me mas quase não o sinto. Há um espelho que me reflecte. Mas aquele reflectido não sou eu. O meu corpo desfalece, sinto-me cair no chão com força. Dói tanto.



Raquel
Conhecemo-nos naquela discoteca nessa noite e ele levou-me para sua casa. Já nem me lembro do nome dele, mas penso que era um homem importante. Um homem? Um rapaz, afinal só tinha mais quatro ou cinco anos que eu. Nem liguei muito aos pormenores da sua vida, pois o que ele me ofereceu foi muito mais importante que tudo o resto. Uma noite de sexo muito especial, a minha primeira vez. Eu estava nervosa e ele notou, pôs-me à vontade e penetrou-me com suavidade. É inexplicável o que senti, um enorme prazer aliado a uma dor mínima. Repetimos várias vezes, como se aquilo para mim já fosse um hábito e no fim da noite ele deu-me dinheiro. Eu ia a sair do seu carro, ele esticou a mão e deu-me uma nota de cem euros. Não tive nenhuma reacção, a não ser a de aceitar. Junto à nota vinha um bilhete que dizia para não o procurar mais, que tinha mulher e um filho e que esperava ter-me compensado por isso.
O dinheiro aliado ao sexo levou-me assim para uma espiral de perversão que ainda hoje me asfixia.

É assim que conto a minha história. É assim que conto como comecei a prostituir-me. A minha tia olha-me agora como se eu fosse um bicho nojento, quase que sinto os pensamentos dela a viajarem pelo mundo de sexo que eu percorro há mais de um ano. No outro lado da sala, a fumar um cigarro, a minha prima lança perguntas para o ar, como se este fosse o assunto mais banal que houvesse para se debater num reencontro familiar. Ela quer saber quantos homens já me foderam, se eram novos ou velhos, feios ou bonitos. Como se isso interessasse... o que realmente me interessa nas minhas noites devassas é sentir o dinheiro nos bolsos, sentir que valeu a pena, sentir que apesar de ser uma puta ainda consigo sustentar-me. Sei que o que esperavam era que eu chorasse enquanto revelo uma coisa destas, mas não o faço. Já deixei de o fazer há muito e já que estamos numa de contar a verdade...

Agora a minha tia conta-me a vida do meu pai neste período de tempo em que não nos vimos. Não quero ouvir mais, prefiro sair e apanhar algum ar fresco. O cemitério onde o meu pai foi sepultado é igual a todos os outros, a sua campa é banal, como tantas outras. Não sei porquê mas isso aborreceu-me, como se eu pudesse ter-lhe dado um sítio melhor para ele descansar em paz. Penso nisso e não consigo chorar mais. Se ele fosse vivo não permitiria que eu me pusesse a chorar, por isso vou fazer força para aguentar mais um pouco.

Visitei a nossa casa e encontrei montes de fotografias nossas, nas quais eu me recusei a tocar, como se o meu corpo as fosse contaminar, como se fosse estragar a pureza que emana delas. Adorava ficar mais algum tempo por aqui, pois parece que sinto o cheiro do meu pai em todos os objectos, mas preciso de trabalhar hoje à noite. Trabalhar... como se ser puta fosse o trabalho mais normal do mundo. Não, não é.




Ricardo
As notícias correm depressa. Nesta altura já toda a minha escola sabe que sou um anormal. Gosto de rapazes, sou um anormal. Pensei que tivesse sido o Nuno a contar mas ele jurou que não foi e não sei porquê vi-me forçado a acreditar nele. O meu pai diz que já marcou uma consulta na psicóloga e que acredita que eu vou ser curado. Que estupidez. Não preciso de nada disso, pois eu é que vou provar a mim próprio que não sou gay. Isto pode ter sido apenas mais uma experiência da vida, um desvio de atitude. E agora aqui estou eu sozinho, no meu quarto escuro, vítima dos meus próprios erros. Mais, sou vítima da discriminação de quem não aceita pessoas diferentes. Como explicar isso a quem sente repulsa? Isso de se gostar de pessoas do mesmo sexo...

Até eu sinto nojo de mim próprio, do meu corpo. E não sei como contornar isso.

O meu corpo espalmado contra a cama parece não querer mover-se. De vez em quando lembro-me de respirar, já tenho os olhos secos. Não os consigo fechar, fixando obsessivamente as sombras que a luz da rua projecta na parede do meu quarto, através da janela entreaberta. Estou sozinho e preferia ficar assim até ao fim dos meus dias, sem ninguém para me apontar o dedo. Um susto. A campainha toca. Os meus pais ainda estão no trabalho, quem pode ser? Alguém para me envergonhar?

Não quero saber. Toca outra vez e outra vez e outra vez. Não vale a pena ignorar. Levanto-me, sinto-me um pouco atordoado. Forço-me a caminhar até à porta, que abro muito devagar, como se dali fosse emergir um demónio qualquer pronto a degolar-me. Não me enganei muito.

“Daniel? Aqui?”




Daniel
“Olá Ricardo. Estás bom?”

Entro sem pedir licença.

“Vejo que precisas da minha ajuda. Primeiro, deixa-me dizer-te que só vim aqui porque sei que precisas muito de mim. Segundo, deixa-me dizer-te que quem telefonou para o teu pai fui eu. Terceiro, se toda a gente sabe agora da tua orientação sexual, a culpa é minha. Minha e tua, porque davas muitos nas vistas quando andavas com o Nuno no jardim à noite.”

O Ricardo avança para mim, como quem vai bater-me, mas a faca que saco do bolso é o suficiente para o fazer recuar. Aqui estamos nós, no hall de entrada da sua casa. Ele treme e eu continuo a falar enquanto lhe aponto firmemente a faca.

“És um anormal. Sabes disso, não? És algo que a sociedade nunca vai aceitar. Tenho pena, porque não vais poder mudar isso.”

Ele começa a chorar, enquanto eu o encosto à parede e o agarro pelo pescoço. Consigo ter uma força que me surpreende. Mas o que vou fazer com ele? O que é isto?

“Devias ter mais cuidado, porque as pessoas têm olhos que vêm muito bem, até no escuro. Até nas ideias mais obscuras. Sabes, quero vingar-me de ti, pelo que me fizeste passar em frente àquela turma merdosa que nós temos. Eu fui posto de parte e tu agora também.”

Isto caiu-me como um murro no estômago, sinto um calafrio. O Ricardo está a sofrer o mesmo que eu. Ele começa a chorar mais e também a falar. As suas palavras desarmam-me. “Daniel, tu e eu somos iguais, não percebes? Apenas vítimas da discriminação, só porque somos diferentes...”
Deixo cair a faca e ajoelho-me aos pés dele, sinto a minha cabeça vazia, o corpo leve como se fosse começar a flutuar. Ele baixa-se, ficamos os dois de joelhos e abraçamo-nos. Abraçamo-nos com tanta força que os nossos ossos parecem estalar. Há uma força que emana dos nossos corpos, que nos contrai um contra o outro.

“Desculpa, desculpa, desculpa!”. Repetimos um ao outro enquanto as nossas lágrimas nos molham, como se nos lavassem a alma. Este não sou eu. Ou melhor, este não é quem eu quero ser. Este é o Daniel que quero sempre ocultar. E sou tão frágil, nada frio como queria ser. E sou tão compreensivo neste preciso momento. Sinto a fragilidade do Ricardo e quero recriminar-me por tudo o que fiz. Mas se eu não o tivesse feito, não acabaríamos agora assim. Pois é, parece que até um psicopata tem um lado mais carente.



A questão deste capítulo não está directamente relacionada com o desenrolar da história. Ou seja, independentemente da resposta que vença a votação, o rumo da história não será alterado mas apenas avançará mais depressa ou mais devagar em relação a um dos personagens. Aproveito para dizer que por agora vou mesmo ficar-me pelos 10 capítulos. Depois disso logo se verá o que poderá acontecer.


Qual dos personagens deve ter mais destaque no próximo capítulo?
Pedro
Raquel
Ricardo
Daniel
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