Perguntas-me quem sou. Eu sou talvez a voz da tua consciência. Tu tens um nome, eu não. António, sabes que morreste naquele acidente de automóvel e também sabes que conduzias embriagado. E enquanto as autoridades chegavam e os médicos tentavam a todo o custo reanimar o teu corpo já desfalecido, a tua alma ascendeu, elevou-se até aqui, onde me encontraste, onde te falei. Até agora levei-te a espreitar a vida de quatro pessoas e pareces continuar sem perceber quais são as funções do Pedro e do Ricardo na história da tua vida. Mas da Raquel e do Daniel tu tens absolutas certezas, ou talvez não. O teu corpo é completamente inexpressivo, manténs-te imóvel enquanto observas e já nem sequer respiras. Estás morto e nada pode contrariar isso, já não sentes, já não te emocionas e nem sequer tens o direito de falar sobre o que vês. Sabes uma coisa? Só assim poderás acompanhar estas vidas sem as quereres mudar. Muitas vezes tentaste mudar a vida da tua família e isso acabou como sabes, com rastos de morte e muita dor. António, tu foste um psiquiatra brilhante, empenhado e amigo como poucos o são. Mas do outro lado da moeda tu feriste a tua mulher e a tua filha. Agora que já não vives podes tentar perceber como o fizeste, pois também já não estás sob o efeito psicótico do álcool. Ai António, António... hoje alguém vai saber da tua morte, mas infelizmente não é a pessoa que tu mais querias que soubesse.
Sem mais pensamentos dementes, vamos espreitar a vida destes quatro inadaptados, como tu com certeza lhes chamarias...
Sem mais pensamentos dementes, vamos espreitar a vida destes quatro inadaptados, como tu com certeza lhes chamarias...
Pedro
O teu telefonema assustou-me, pois não achei que tivesses coragem para o fazer. Tu foste a pessoa com quem traí o meu amor. Naquela dia eu e tu estávamos eufóricos, afinal tínhamos acabado de ganhar aquele concurso de dança em que empenhamos todo o nosso esforço. Eu e tu, finalmente vencedores. Mas parece que não te contentaste com o prémio e quiseste mais de mim, começamos a beber para comemorar e acabamos por exagerar nisso também. Sozinhos. Pouco sóbrios. A minha casa. A minha cama. Eu a deixar-me levar pelos teus beijos e depois tu a deixares-te levar pelo meu toque. Não foste a única culpada, fomos cúmplices.
Quando a Joana abriu a porta do meu quarto e nos viu deitados na minha cama... nem sei que pensar, foi um choque para mim e para ela. Depois disso fui duro contigo e expulsei-te, como se só tu tivesses a culpa do que se havia passado. Os dias seguintes foram uma tortura para mim e acabei no hospital, devido talvez à segunda maior burrice da minha vida. A primeira foi envolver-me contigo. Sinto muito, mas agora já não podemos ser o par que iria arrasar os palcos deste país no próximo Verão. Já reparaste bem? Com um só única noite de sexo consegui destruir tanto da minha vida. A Joana não quer nada comigo agora, apesar de ainda me amar. Eu sofro com isso, a minha mãe sofre porque tem medo das minhas acções. Tu perdes um amigo e companheiro que esteve contigo desde os primeiros passos no palco da vida. Custa-me ter que tomar uma decisão destas, mas é o que penso ser melhor para todos agora.
E aqui vou eu ao teu encontro. Há uma hesitação que me quer dominar, mesmo quando entro neste sitio tão nosso. Cá estás tu no café onde passamos bons momentos, onde parávamos sempre antes dos ensaios de dança. Agora sinto-me mal por estar aqui e sinceramente preferia evitar esta conversa, mas agora vamos até ao fim. E tudo isto que estou a pensar agora vou dizer-te já, rápido e sem demoras.
Raquel
Tremo da cabeça aos pés e mal consigo pronunciar as palavras que aos soluços me saem da boca. “Tiago, o que estás a ver é mesmo o que estás pensar”, digo isto numa tentativa de ser coerente. Ele faz uma cara entre o envergonhado e o chocado mas mesmo assim ainda tenta sorrir, não consegue. Em poucos segundos os olhos dele parecem ganhar fúria, como se a qualquer momento ele me fosse bater. Já não consigo olhar para ele, instala-se um silêncio constrangedor e a cidade não pára. Ouço-o sibilar um adeus enquanto me vira as costas sem sequer olhar para mim, para depois se afastar quase a correr. Sinto um impacto no coração, como se tivessem arrancado algo de mim e choro, por saber que a minha vida dupla já não está em segurança e que provavelmente mais pessoas irão saber disto agora.
Apetecia-me voltar para casa, mas não o posso fazer, por isso continuo a descer a rua e preparo-me para mais uma noite ao serviço dos sedentos da minha luxúria. Por mais força que faça é impossível controlar as lágrimas, pareço uma criança a quem roubaram o seu brinquedo favorito.
O meu pai fazia-me falta agora, muito mais que a minha mãe, por saber como lidar comigo nestas situações. Agora que me lembro dele ainda choro com mais força, enquanto uma das minhas colegas de trabalho se aproxima espantada com a minha aflição. A mão dela sobre o meu ombro chega a ser reconfortante mas nem sequer consigo falar, por momentos quase que sinto que ela percebe perfeitamente porque estou assim. E é natural que perceba, afinal já está nisto há mais tempo que eu e de certeza que também passou pela vergonha de ter que se declarar a uma sociedade cruel e mesquinha, que tende a olhar-nos como bichos putrefactos.
Não há mais tempo para dramas. Somos putas num mundo cheio de filhos da puta. O primeiro cliente chega e está na hora de me recompor, ainda tenho o aluguer da casa para pagar. Hoje é um homem na casa dos quarenta anos, barrigudo, com um bafo de vinho insuportável e que expira um cheiro a tabaco por todos os poros da sua pele. Uma situação completamente nova para mim. Por mais que eu me esforce, aquilo não levanta. Já tentámos de várias maneiras mas não há volta a dar. O homem acaba por me mandar parar, paga-me e surpreendentemente não parece sentir-se embaraçado enquanto me fala dos problemas do seu casamento e na dor que sente por ter agora a prova de que o problema é mesmo dele e não da mulher, como até aí pensava. A cara dele não me foi estranha ao primeiro contacto mas agora percebo que se trata de uma figura muito conhecida do nosso panorama político. Ainda muito abalada, deixo-me levar pelo sofrimento deste homem e chego mesmo a partilhar uma parte daquela angústia que me corrói a alma. Falo do meu pai, da vontade que tenho de o voltar a ver, do que faço para pagar a minha vida...
E assim se passou uma noite, em conversas informais acerca dos problemas um do outro. Estou em casa e enquanto me levanto da cama penso naquele homem gasto que cheirava a tabaco velho e que foi o meu amigo de ontem, mas que nunca mais o voltará a ser.
Todos os jornais matutinos noticiam a morte de um importante ex-ministro, encontrado morto no seu carro, após o que parece ter sido um despiste acidental numa estrada pouco movimentada. É o homem que me falou e que me ouviu a noite passada, não deixo de sentir tristeza ao ver as fotos dele espalhadas pelas páginas da imprensa e por momentos, enquanto entro no metro apinhado de gente, rezo para que a sua alma descanse em paz. Contrariamente ao que todos os jornais declaram, duvido muito que tenha sido acidente...
Ricardo
A minha vida mudou. Os últimos dias têm sido vividos entre o fascínio que desenvolvi pelo Nuno e os problemas que acabei por arranjar na escola. Nunca fui um aluno muito aplicado, mas agora exagerei no desleixo. Já nem me importo com isso. Estou apaixonado e nada mais me importa agora.
Eu e o Nuno temos passado muito tempo juntos, sempre em busca de novos momentos para apimentar a nossa relação. Nem sei como definir esta relação, porque não somos namorados mas agimos como tal. Ele vai sempre esperar-me no fim do meu treino de futebol, depois disso damos uma volta pelo jardim, sempre com muito cuidado. Se há coisa que me aterroriza é o medo de ser apanhado em flagrante com ele, nem quero pensar nos problemas que isso me iria trazer. Ele diz que tenho a mania da perseguição e em certa parte até é verdade, pois estou sempre a pensar que alguém nos está a observar.
Cada beijo que nós trocamos é sempre especial e finalmente decidi entregar-me totalmente a ele. Foi doloroso, senti-lo completamente dentro de mim, mas agora não quero outra coisa. O que me surpreendeu foi ele não me deixar fazer-lhe isso também. Afinal parece que ainda não percebi bem a diferença entre um activo e um passivo...
Sinto-me tão bem assim, tão feliz, tão preenchido... mas tenho medo que ele não esteja a sentir o mesmo.
Hoje vai ser uma noite especial, o Nuno vai levar-me pela primeira vez a uma discoteca gay. Para dizer a verdade, não me sinto minimamente preparado para isso.
Daniel
Quem me visse agora não pensaria que eu sou o único filho do primeiro-ministro deste país. No entanto, começo a achar que este psiquiatra aqui à minha frente já está a perceber isso, visto que já acredita que um louco criou um louco.
Recebi duas notícias hoje de manhã. Uma tornou o meu dia ainda mais pesado. A minha mãe mandou recado por uma enfermeira, que estúpida foi. O meu antigo psiquiatra morreu num acidente de carro. Despistou-se por conduzir alcoolizado e parece que teve morte súbita. Pelo menos isso deve ter-lhe atenuado a dor em que vivia, depois do suicídio da mulher e do desaparecimento da sua única filha.
Naquele dia em que esse psiquiatra me confrontou pela quinta vez pareceu ter encontrado o cerne do meu problema. Era um homem que não recorria a qualquer género de eufemismo, por isso olhou-me bem fundo nos olhos e disse “tu sofres de doença bipolar, o que explica em grande parte o teu temperamento violento”. A maioria das pessoas choraria ao ouvir isto, mas eu não. Sorri e suspirei por não se tratar de esquizofrenia, depois sorri ainda mais quando vislumbrei imagens de mim próprio dividido em dois, a minha dupla personalidade ao rubro e ao serviço da sociedade. Talvez agora eu fosse capaz de matar, afinal tinha uma doença moderna e que dentro de poucos meses estaria na moda entre os pseudo-artistas de Hollywood.
Recuo até à minha emproada infância. Cresci nos restaurantes mais luxuosos, onde jantei com o jet-set mais embriagado que já conheci. Cresci em colégios para arrogantes, onde quebrei todas as regras até ser expulso. Cresci em festas privadas, onde as minhas tias nojentas e fúteis passavam a vida a reprimir o meu comportamento. Nunca percebi a embirração por causa de eu ter tentado afogar o meu primo na piscina durante uma dessas festas, afinal ele insista que os Backstreet Boys eram o que de melhor tinha acontecido na música mundial nos últimos dois mil anos... A doença bipolar, como o próprio nome indica, assenta em dois pólos, tal como o pólo norte e o pólo sul. Todos temos dois pólos, um surge quando estamos bem o outro quando estamos mal. O problema é que do meu pólo norte ao meu pólo sul podem ir apenas alguns segundos de viagem, apenas um clique que desperte os meus instintos violentos e a festa começa, sem que eu tenha controlo sobre ela.
Aos meus dezasseis anos obriguei o meu pai a mudar-me para uma escola pública, recusei-me a frequentar mais festas dessas e tive a minha primeira vez, no wc da escola pública. O meu primeiro e único amor até agora.
A segunda notícia que recebi hoje de manhã tornou o meu dia muito mais divertido. Estava eu a deambular pela psiquiatria quando fui chamado para atender um telefonema da minha mãe. Achei estranho, visto que antes ela tinha mandado aquele recado estúpido pela enfermeira. Como é óbvio, não era a minha mãe que estava ao telefone mas sim alguém que se tinha feito passar por ela. Uma repórter do jornal mais sensacionalista deste país. E em que estava ela interessada? Como é óbvio, no facto insólito do filho do primeiro-ministro estar há uma semana internado na ala psiquiátrica de um hospital. Afinal, para todos os efeitos, eu ainda sou filho do maior mentiroso deste país e qualquer escândalo mesquinho poderá fazer correr muita tinta na merda de jornalismo que ainda temos. E eu estou a precisar de me divertir, portanto vou aproveitar a oportunidade única de ver o meu pai a visitar-me aqui na psiquiatria enquanto suplica para que eu não dê nenhuma entrevista àquela cabra da imprensa.
2 comentários:
Tenho de vir ler com mais disponibilidade de tempo.
Um abraço.
Luis
ok...
fico à espera...
também já espreitei o teu blog "virtual realidade" e tenho que arranjar um tempinho para o ler com atenção, pareceu-me muito interessante.
;)
abraço
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