segunda-feira, 4 de junho de 2007

CAPÍTULO VIII

Ainda pensas que vale a pena continuar a observá-los? O teu tempo está a acabar, António. Vamos aproveitá-lo ao máximo, como tu certamente não farias se ainda vivesses.


Pedro
Posso estar com uma lesão cerebral. Posso estar com uma lesão no fígado. Posso estar mesmo a morrer desta vez. Tudo é incerto. Ou melhor, há uma coisa que é certa: abusei no uso dos comprimidos e isso pode ter-me destruído por dentro, fisicamente. Que faço agora? Nada. Limito-me a esperar pelo resultado dos exames que fiz hoje de manhã. E mais, faço força para me convencer de que a minha queda no duche foi apenas uma descida de tensão. Também pode ter sido, mas aqueles instantes em que me olhei ao espelho foram muito estranhos, como se a resposta estivesse ali.

Imagens mínimas, pequenas partes do meu ser. A luz do candeeiro. Eu. Tu, Joana. Vem comigo. Não, não posso pensar mais nela. Mãe. Estás comigo? Não, não estás. Que me espera. Quero sair daqui pai. A psiquiatria é um lugar horrível, masmorra dos meus sentimentos. Quero ser livre, sair da gaiola onde me prenderam. Sou um pássaro que aprendeu a voar mas que alguém prendeu. É injusto. A luz do candeeiro parece ofuscar-me, como se aumentasse. O comprimido para me pôr a dormir já está a fazer efeito. As alucinações começam, como a projecção dos meus problemas numa enorme tela de cinema. Vejo um funeral, mas não é o do meu pai. Muitas pessoas choram, muitos amigos me acompanham. Eu estou no centro e grito, como se não dominasse uma fúria doentia. Lembro-me disto? Ou será só a minha imaginação? Como num filme, a câmara aproxima-se e mostra-me a urna. Não. Não é verdade. Ela não morreu, ainda a semana passada esteve comigo. A câmara aproxima-se mais e mostra-me de perto o rosto daquele corpo morto, como se eu me recusasse a acreditar. Não quero adormecer agora. O comprimido é forte demais, não resisto. Fecho os olhos. O funeral continua. Sonho? Memória? Alucinação? A câmara foca aquele rosto de anjo. Faz-me chorar, a duvidar.

Joana?



Raquel
Dinheiro. Dinheiro. É o que move o meu corpo, que se eleva e desce repetidamente sobre outro corpo suado. Não há prazer que se infiltre aqui, a não ser o dele. Mas isso não me importa. Dou conta daquela súbita falta de ar que precede o orgasmo dele, saio de cima do seu corpo bafiento, pego no dinheiro e saio do carro. Já é a terceira vez que este me procura e fazemo-lo sempre desta maneira: dentro do carro, na avenida mais movimentada da cidade. Ele gosta de se sentir observado enquanto me fode. Deve ser assim um típico trauma de infância que se reflecte agora num fetiche sexual completamente descabido. E cá estou eu para o satisfazer e compreender. A psicóloga prostituta.

Agora que penso nisso, dava um título bonito para uma daquelas histórias dramáticas que passam nos programas matutinos da televisão. Mas... a minha história está longe de ser dramática.


Ricardo
A minha respiração acelera. Tento conter os gemidos. Ouço passos à minha volta. A minha mão esquerda apoia-se na parede à minha frente. Suada, quase escorrega. A mão direita trabalha lá em baixo. Estou no intervalo das aulas. Quase. Acelero os meus movimentos, sinto a excitação a possuir-me. Uma contracção dos músculos e expludo. Por momentos esqueço-me que estou numa casa-de-banho pública, num compartimento demasiado apertado e sujo. Espero que ninguém tenha ouvido os meus gemidos. Aguento um bocado, até não ouvir barulho e depois saio para o corredor quase deserto.

Vou faltar à aula. E esta vai ser uma falta mais que justificada. Já estou a imaginar o diálogo: “Ricardo, porque faltaste?”, “Olhe professora, faltei à aula porque estou farto dos olhares discriminatórios e xenófobos da maior parte dos meus colegas de turma. Porque sou gay, entende?”

Se os olhares fossem o único problema eu até aguentava, mas levar com piadinhas a toda a hora não faz realmente parte dos meus planos para hoje. Nem para amanhã. Nem para depois. O mais reconfortante ainda foi descobrir que afinal o Daniel é muito mais amigo do que todos os outros. Nem sei se posso considerar amigo, talvez seja apenas mais um colega de batalha. Ele luta por uma causa e eu por outra, mas estamos ambos do mesmo lado da guerra. Talvez se ele viesse às aulas pudesse ser outro apoio para mim. Nem sei que anda ele agora a fazer, mas espero que esteja mais calmo e que venha depressa para a escola, caso contrário também eu terei que a abandonar.

Procuro o meu cantinho no jardim da escola. Nos meus primeiros anos era aí que me refugiava sempre que precisava de estar sozinho, como agora. Nunca me passou pela cabeça que pudesse precisar de o fazer outra vez. O meu telemóvel toca. É a minha mãe, por isso não atendo. Ontem ela ofendeu-me bastante, ao dizer que sente nojo de mim e que espera que a psicóloga resolva este meu problema. E só por causa disso lá vou eu amanhã para a psicóloga. Deve ser mais uma daquelas psicólogas fashion, por isso vou limitar-me a responder às questões que ela coloca a todos os pacientes, partindo do princípio que são todos iguais. A minha mãe vai adorar isso, tal como adora assistir à estúpida novela da noite. E eu vou passar por alguém que se quer tratar de uma doença, quando isto não é uma doença que se trate com terapias rebuscadas. A única terapia para isto é baseada nos prazeres da carne e apenas eu posso prová-lo. Vou procurar prazer no sexo feminino. A maneira mais fácil é procurar prostitutas, visto que nenhuma amiga minha está disposta a colaborar no meu sofrimento. Será fácil resolver isto. Vou, pago e depois é só experimentar se realmente isto funciona da mesma maneira. Ai, sou tão estúpido. Por que penso nisto? Que pensamentos são estes que tentam iludir-me, rasgar a minha lucidez? Eu gosto de rapazes, certo?


Há revolta dentro de mim. Muita revolta. Mas ao mesmo tempo sinto que tenho a alma vazia. Escondido aqui neste cantinho do jardim consigo observar tudo à minha volta, como se fosse invisível. Há um casal de namorados, heterossexuais, sentados num banco em frente à porta do bar da escola. Beijam-se vezes sem conta e demoradamente. Podem fazê-lo ali, à frente de toda a gente e ninguém lhes aponta o dedo. Prefiro não continuar a olhar. Observo o chão onde estou sentado. Não há nada, para além de relva seca. Será isto um reflexo do meu próprio eu? Serei eu apenas uma erva que se deixou secar? Não, não posso ser. Eu sou mais forte que isto tudo.
Levanto-me mas logo me arrependo de o ter feito. “Ainda bem que te vejo”, diz o Nuno que caminha agora na minha direcção. Não percebo o que faz ele aqui, se nem sequer é aluno desta escola. Fico imóvel, à espera das palavras dele. Tenho que reconhecer que a nossa história não foi nada exemplar. Primeiro comemo-nos logo no primeiro encontro, depois perdi a virgindade com ele e simplesmente isso nada significou para ele. A cena de pancada na discoteca não abonou nada a meu favor e acabei por desconfiar dele quando na verdade tinha sido o Daniel a contar ao meu pai sobre a minha orientação sexual. E agora aqui estamos. Observo os seus olhos, os seus movimentos. Tenho medo. Sim, medo dele. Atracção também, vontade de cair nos seus braços e de chorar até libertar todo este sofrimento. Ele começa a falar, “Ricardo, desculpa vir assim sem avisar. Só vim porque sei que estás a sofrer e queria ver isso com os meus próprios olhos”. Tento não acreditar que ele veio aqui só para me provocar. Respiro. Controlo-me. Respiro mais fundo. Ele continua, “Mas não penses que quero o teu mal, estou aqui para te ajudar amigo.” Agora é que faço mesmo força para não acreditar. Ele quer gozar comigo ou ajudar-me. Opção A ou opção B? Alguém pode escolher por mim? É impressionante como ainda acho piada à minha situação actual. O Nuno continua a falar, “Já vi que não estás muito crente em mim, mas acredita que só quero o teu bem. Também já passei por isso e tu sabes, porque te contei, mas não há nada como sentir na própria pele”.


O Ricardo deve aceitar o Nuno como amigo?
Sim
Não
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Daniel
É aquela sensação de quereres matar alguém. Passas por alguém na rua e sentes isso.

Não vale a pena gastar o meu tempo com este psiquiatra, ele não me entende e apenas se limita a dar-me calmantes, comprimidos reguladores de humor e outras drogas nada naturais. Estou proibido de beber café e tudo o que possa conter cafeína. Álcool nem pensar. Estou enfiado numa ditadura e não gosto minimamente disso. Mas todos à minha volta passam o dia a gritar que a cafeína e o álcool em excesso vão despertar os meus instintos mais violentos ou mesmo os instintos mais frágeis e que portanto não posso abusar nisso. Não gosto que gritem comigo, porque isso obriga-me a gritar mais alto.

Foi o que senti quando ameacei o Ricardo com aquela faca. Não é que não tenha gostado de o fazer, mas foi aquela sensação de querer matar alguém. Se bem me lembro, acabei por gostar dele. Mas porque não consigo senti-lo agora? Estou farto desta bipolaridade que me corrompe.

Hoje é um dia decisivo e nem sequer me importo com isso. Parece que a notícia do meu internamente acabou mesmo por chegar aos jornais e, como se esperava, o meu pai não gostou nada disso. O senhor primeiro-ministro tem a sua primeira mancha numa carreira política de quase vinte anos. Estou orgulhoso disso, mas nada contente por ter que receber hoje a televisão lá em casa. Agora temos que passar uma imagem de família feliz e para isso não há nada melhor do que chamar os intrometidos dos jornalistas.



Eles já estão à minha espera na sala, tal como o meu pai e a minha mãe. Eu já estou quase pronto, basta apenas acabar de beber o meu cafézinho. O trigésimo café desta tarde. Trinta cafés parece um abuso, mas talvez nem o seja. Bem, com tanta cafeína dentro de mim, uma coisa é certa: o espectáculo vai começar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Só pra dizer k axo k a historia ta algo de fantastico.
Adorei estes 8 capitulos e a forma como foram escritos.
Tou ansioso pelo proximo capitulo e claro pelo grande final porque uma excelente historia so pode ter um final brutal mesmo

Deixo desde ja os parabens ao autor e k continue com o excelente trabalho

Abraços